#qqpega 08 - Entrevista com Silvia Elena Tendlarz

Boletim da XX Jornada da EBP-MG "Jovens.com: Corpos & Linguagens"



O Boletim #qqpega 08 chega recheado! Começamos com duas excelentes entrevistas com colegas da EOL. A primeira realizada por Simone Souto com Débora Nitzcaner; e a segunda realizada por Ludmilla Férez Faria, com Silvia Elena Tendlarz. Em suas respostas, cada uma delas coloca algo de seu, seja a partir de sua clínica, seja de sua experiência enquanto jovem. Se Silvia Tendlarz tem como interlocutora uma jovem de 16 anos,Débora Nitzcaner, nos relata sua relação com a música, viagens e transgressões. Leiam as entrevistas no Blog da Jornada.

Na edição do Lacan Cotidiano 587, lançado no dia 12 de junho, foi publicada uma crônica do nosso convidado Daniel Roy em relação ao modo como a ciência tem abordado a juventude e seus "distúrbios" de aprendizagem. Nesta brve crônica, Daniel Roy se mostra irônico e com críticas e questionamentos importantes sobre como as neurociências têm funcionado ao redor do mundo. Leia a crônica de Daniel Roy logo abaixo deste editorial.

Lembrando que o prazo de envio de trabalhos para a Comissão Científica se encerra dia 30 de junho!

Finalizando esta edição do Boletim #qqpega, lembramos que as inscrições estão abertas e além da possibilidade de serem feitas em duas parcelas, o valor está mais baixo! Então não perca essa chance!

Quem se interessar em enviar sua contribuição para as próximas edições do Boletim @qqpega, envie um e-mail para miguelfigueiredoantunes@gmail.com

Uma boa leitura!

Miguel Antunes
Coordenador do Boletim #qqpega

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Vamos lá, neuro crianças!
Vamos lá, crianças, a crônica de Daniel Roy

Le Monde, jornal cotidiano de referência, “decididamente moderno”, se inflama, em seu caderno Ciência e Medicina do dia 25 de maio de 2016, para uma ciência não menos “decididamente moderna” chamada a grandes desenvolvimentos num futuro próximo e brilhante, que responde pelo doce nome de NEUROEDUCAÇÃO, colocada aqui sob a autoridade de nosso neuropesquisador nacional Stanislav Dehaene que decreta em sua cadeira do Collège de France: “É preciso fundar a pedagogia sobre as provas, não sobre intuições”[1]. Putz! Era tempo de colocar ordem – literalmente – nestes anjinhos, fazendo-se A boa pergunta: “O que se passa em um cérebro que aprende?”[2]

Não ficamos desapontados, pois as respostas não tardam a chegar, baseadas, como devem ser, “nos trabalhos inovadores” e “nas pesquisas de ponta” que ”permitiram elucidar os mecanismos neuronais de algumas aprendizagens”. Neste ponto, uma ligeira decepção surge quando os resultados estão equivocados: “Graças ao IRM (ressonância magnética), foi estabelecido que a aquisição da leitura faz desenvolver uma conexão eficaz entre a visão das letras e o código dos centros de linguagem”. Como? Isso é possível? A leitura teria, portanto, relação com a linguagem? Eis que surge uma nova era (ar?[3]) para as aprendizagens...

Com efeito, “as neurociências cognitivas identificaram quatro pilares de aprendizagem” (lembremos que é preciso mais três para o conhecimento: neurocientistas, um esforço a mais!):

Pilar 1: “a atenção”. Tradução: É muito útil, por que isso permite prestar atenção.

Pilar 2: “O comprometimento ativo do aprendiz”. Tradução 1: “auto avaliações e controles dos conhecimentos regulares”; Trad. 2: não se diverte mais; Trad. 3: atrás de cada aprendiz, buscar seu mestre.

Pilar 3: “o retorno da informação ou feedback”. Trad. 1: “o erro é bom para o cérebro (miam-miam). Trad. 2: não se pode abusar, ou de repente haverá uma mutação diabólica (perseverare, etc.).

Pilar 4: (onde nos satisfazemos): “a automatização”. “Trad. 1: de dia, tu repetirás, de noite, tu consolidarás; Trad. 2: “Vamos lá, neurocrianças, seu dia da glória chegou”[4].

Dirão que se trata aqui de uma vulgarização, que seria melhor ir diretamente às fontes, aos trabalhos sérios publicados nas revistas científicas “ao comitê de leitura”. Alguns, mas o efeito de lupa de tais resumos jornalísticos é suficientemente eficaz para nos informar sobre “a criança neuronal” sonhada pelos neurocientistas: uma criança que se põe ao serviço de seu cérebro-mestre, que o enriquece, o cultiva, o educa, com a ajuda de auxiliares atentos e experts, cientistas e professores reunidos pela “enorme atração exercida pelas neurociências”. O futuro “brilhante” proposto é quase entregue de mão beijada aos jovens estudantes que poderão dispor de uma espécie de open source (!), um aplicativo de celular que “ajuda a otimização das performances cognitivas”: “Cada dia, o usuário informa o programa sobre seu comportamento: sono, humor, consumo de produtos... os dados são registrados pelos sensores (voz, mímicas, movimentos). Em resposta, o aplicativo devolve ao usuário informações sobre seu estado cognitivo e propõe (eventualmente) reajustes, em caso de lentificação no desempenho das tarefas”.

Parece-nos mais interessante constituir a atenção colocada em relação à questão do “erro” por alguns pesquisadores citados no Le Monde, cujos trabalhos se baseiam em equívocos com relação aos “redutores de cabeças” citados acima. Assim, o professor Houdé do Laboratório de psicologia do desenvolvimento e da educação da criança, da Sorbonne, valoriza a capacidade do cérebro em resistir a alguns de seus automatismos e a mudar de estratégia: “Em formação de imagens funcionais, nós mostramos que o cérebro passa do erro ao sucesso se reconfigurando”. Nós também, leitores, somos iludidos aqui por nossos “automatismos” que nos levam a tratar o sujeito gramatical dessas frases, “o cérebro”, como um agente, que “é capaz”, que “resiste”, que “se reconfigura”. É preciso, portanto, inibirmos a parte posterior de nosso córtex, sede dos automatismos, e ativar nosso córtex pré-frontal, que bloqueia estes mesmo automatismos, para compreender que são os pesquisadores que constatam uma modificação dos ares cerebrais ativados assim que um sujeito corrige um erro, dito “automático”. Isto consiste, nos exemplos propostos, em uma contaminação significante da leitura ou da escuta de um enunciado. Estamos muito interessados pela descoberta,  pela IRM, dos “lapsos cerebrais”... Eles deixam à criança uma margem de manobra apreciável para escapar desta empresa desenvolvida da neuro-avaliação.

Tradução: Letícia Couto e Silva de Mello e Miguel Antunes
Revisão: Elisa Alvarenga


[1] http://www.lemonde.fr/sciences/article/2016/05/23/stanislas-dehaene-il-faut-fonder-la-pedagogie-surdes-preuves-non-sur-des-intuitions_4924718_1650684.html?xtmc=neuroeducation&xtcr=1
[2] http://www.lemonde.fr/sciences/article/2016/05/23/la-neuroeducation-peut-elle-sauver-lecole_4924740_1650684.html?xtmc=neuroeducation_houde&xtcr=1
[3] NT – homofonia entre ère; era e aire, ar.
[4] NT – Daniel Roy faz um trocadilho com “La Marseillase”, nele se diz: “Allons enfants de ma patrie, le jour de gloire est arrivée. Adiante crianças de minha pátria, o dia da glória chegou.


Jornada EBP-MG