Quereres XV - Maternidades e Escritas

"O que quer a mãe, hoje? Sintomas contemporâneos da maternidade"
Convidada: Marie-Hélène Brousse

Nesse Quereres XV apresentamos dois escritos de duas jovens psicanalistas sobre a maternidade: Adriane Barroso e Priscila Costa .

Como elas mesmas situam, a escrita, nesse caso, é a busca do acolhimento na letra de um não-saber, de um lugar para aquilo que, da experiência, excede o dizer. Ao pé-da-letra:
"A maternidade me trouxe uma liberdade com a palavra. Minha escrita rigorosa, jornalística, ganhou a companhia de outras prosas, um risco que eu nunca quis correr antes de ter um filho. “Você só vai entender quando for mãe” – é mentira, você não vai entender nunca, mas ser mãe, para mim, foi a estreia da possibilidade de não entender, não saber e, mesmo assim, ser. Uma escrita inédita em mim." (Adriane Barroso)

"Posso dizer que a poesia tem sido, para mim, um manejo com o limite - da palavra - no encontro com o real. A poética do que desliza, abraça a liberdade de uma interpretação "não toda", possível de laços." (Priscila Costa)

Assim, se por um lado Adriane e Priscila têm a psicanálise, a escrita e maternidade em comum, poderemos acompanhar nesses breves recortes, formas e estilos próprios de transmitir, com vivacidade, algo de um querer.

Fernanda Costa
Comissão Boletim Quereres


Ó
Adriane Barroso

A primeira palavra da Nina não foi “mamãe”. Nem “papai”, nem “vovó”, nem “água”, nem “colo”. A primeira palavra da Nina foi “ó”. Não foi só a primeira, mas também é, até hoje, a mais usada.
Eu sei, alguns vão argumentar que “ó” não pode ser caracterizado como palavra. Bom, enquanto eu esperava pelo dia em que ia ouvir da minha filha alguma coisa um pouco mais elaborada que aqueles grunhidos iniciais adoráveis, resolvi estabelecer o seguinte critério científico: seria considerada “primeira palavra” o som que ela usasse com um significado claro. Considerando essa regra, todos que convivem mais com a Nina concordam: a primeira coisa que ela falou com intenção de falar foi “ó”.
Para um mineiro (eu sou mineira, a Nina também é), é mais fácil entender a palavra “ó”. Ela é usada ali o tempo todo também pelos adultos, no lugar de “olha”, de forma exclamativa, para mostrar ou chamar a atenção de outra pessoa para alguma coisa. E é isso que a Nina passa a maior parte do seu dia fazendo: apontando para tudo com o dedinho, olhando para mim e dizendo “ó!”, espantada ou alegre.

Ao longo do tempo, a vogal dela foi ficando mais arrastada. Hoje o “ó” às vezes é “óooooo”, com muitas exclamações ao final, em falsete. Ele também foi ganhando variações. Uma delas, a minha preferida, é “óooun!”, para mostrar algo fofo, como um patinho desenhado na fralda ou uma coruja de pelúcia. E tem também o “ó!” rápido e grave, com a boca bem aberta e os olhos arregalados, para quando o inesperado acontece, como um barulho na porta ou a chegada do pai de surpresa.
Sim, hoje em dia a Nina fala “mamãe”. Ainda é raro, mas acontece. E é claro que eu quase morri quando vi essa palavra na boca dela pela primeira vez. Mas a verdade é que o “ó” da Ninoca me arrebata muito mais que o “mamãe” dela. Porque me inclui da mesma forma, mas também me ultrapassa. É endereçado a mim, mas é ela se voltando para fora de mim, para um mundo todo que não sou eu. Tão bonito ter em casa uma gordinha que se encanta e que se espanta tantas vezes ao dia, que acha tanta beleza em tanta coisa. E que, em vez de me chamar de mamãe, prefere chamar o meu olhar para validar e para compartilhar as coisas que ela vê. “Mamãe, vem ver como o mundo é lindo, louco, doce, impressionante, adorável, estranho e encantador. Vem ver, mamãe!”.
Tudo, tudo, tudo isso, o mundo todo, no “ó” da minha gordinha.

Publicado originalmente em: http://blog.abaratadizqtem.com.br/o/

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Ainda nesta edição de Quereres, inspirado pelos escritos de Priscila e Adriane, compartilhamos um outro belo escrito, de nosso poeta mineiro, Carlos Drummond de Andrade, em relação à maternidade, extraído do livro Corpo.

Já estamos no mês da XIX Jornada e aos que ainda não se inscreveram, sugiro que o façam da forma mais breve possível, pois as vagas são limitadas e as inscrições estão a todo vapor! Inscrições.

Mantenham-se ligado às próximas edições do Boletim Quereres, pois em breve divulgaremos a programação completa da Jornada além de textos, vídeos e informações das comissões organizadoras.

Miguel Antunes
Coordenador do Boletim Quereres



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Maternidade


Seu desejo não era desejo
corporal.
Era desejo de ter filho,
de sentir, de saber que tinha filho,
um só filho que fosse, mas um filho.

Procurou, procurou pai para o seu filho.
Ninguém se interessava por ser pai.
O filho desejado, concebido
longo tempo na mente, e era tão lindo,
nasceu do acaso, o pai era o acaso.

O acaso nem é pai, isso que importa?
O filho, obra materna,
é sua criação, de mais ninguém.
Mas lhe falta um detalhe,
o detalhe do pai.

Então ela é mãe e pai do seu garoto,
a quem, por acaso,
falta um lobo de orelha, a orelha esquerda.

Extraído do livro Corpo/Carlos Drummond de Andrade - Rio de Janeiro: Record, 2007, p.27.

Jornada EBP-MG