@DDito 20

@DDito 20
Boletim da XVII Jornada da EBP-MG






Foi bonito o nosso encontro, dois dias de intenso e caloroso trabalho. Como disse Cristiana Pittella, no facebook, "cada um que foi saiu diferente"! Consequências do ato analítico.
Falar com o Outro de nossa época, não recuar frente as questões de sociedade, ativar o poder das lacunas por todos os lados e assim, manter-se sempre jovem, à altura dos impasses de seu tempo. Eis algumas das orientações que foi possível recolher como lembrança política de nossas jornadas e trazer para casa, em nossa linda sacola Suricato.
À Agnès Aflalo, que nos provocou a demonstrar a força do princípio de redução, em uma frase, diríamos que: na era do direito ao gozo, a política da psicanálise se faz através da política do sinthoma, do não-todo e do amor.
Notamos quase 600 pessoas nessa Jornada e um número expressivo de colegas ligados à universidade e a diversas políticas publicas que participaram pela primeira vez de uma atividade da nossa comunidade analítica. Tal marco diz, indubitavelmente, que essa Jornada foi um ato decidido quanto ao enlace da formação analítica engajada com a força política da psicanálise na cidade que lhe concerne! Foi bonito de ver e registrar...
Com esse último boletim, nos despedimos e registramos na íntegra, atendendo aos pedidos, os textos de abertura da nossa XVII Jornada, o vídeo da homenagem ao colega Célio Garcia, agora Membro de Honra da AMP e EBP, e muitas, muitas fotos que revelam a alta temperatura do entusiasmo vivo e feliz com que o nosso encontro aconteceu, seja nas discussões no Fórum sobre as drogas, nas plenárias e mesas, nos bastidores, intervalos, exposição de arte, momento de festa, etc...
 Agora, simbora! Rumo a outubro de 2013, na XVIII Jornada da EBP-MG, coordenada pelo nosso colega Frederico Feu de Carvalho, cujo tema será "Psicanálise e Ciência", por onde a conversa que nos trouxe até aqui, seguirá seus desdobramentos.
Eu não perco a XVIII Jornada da EBP-MG por nada desse mundo, e você?
Um grande abraço e meu agradecimento, do fundo do coração!
Fernanda Otoni - Coordenadora da XVII Jornada da EBP-MG


ABERTURA DA JORNADA E DO FORUM
Sérgio de Castro

Bem vindos  à XVIIª  Jornada de trabalho da Seção Minas Gerais da Escola Brasileira de Psicanálise, intitulada “ A política da Psicanálise na era do direito ao gozo”, e ao Iº  Fórum de Orientação Lacaniana da EBP-MG, intitulado : “Drogas: para além da segregação”.
 O título da Jornada, que se articula ao do Fórum, nos convida a uma reflexão. Para tomarmos sua parte final, onde se lê “na era do direito ao gozo”, percebe-se alí  uma positividade sobre a qual podemos nos deter. Um “direito” será uma possibilidade inerente a uma escolha ou ação. Uma era – a nossa – marcada por um “direito ao gozo”, comportará então algo de típico e próprio no que diz respeito a direitos que tentaremos localizar e elucidar  ao longo da Jornada.
Podemos,  nesta Abertura, para circunscrever a questão  , nos perguntarmos se o gozo sempre foi um “direito”. Tentemos pensá-lo, rapidamente, em alguns momentos do ensino de Lacan.   De imediato se pode dizer- para retomarmos um debate há muito presente entre nós-que, quando não falávamos ainda em “inexistência do Outro”, quer dizer, quando, parece, estávamos inseridos num mundo  onde as ideologias, as grandes definições – que pareciam então naturais- relativas ao certo e ao errado- quando então não eram necessários comitês e comissões de ética para, a cada passo, tentar definir o que se pode e o que não se pode fazer- justamente porque já não se sabe mais-, bem, ali então podíamos falar de um simbólico eficaz e cujo pivô o Nome-do-Pai ordenava e repartia os gozos como que naturalmente. Nesse mundo não faria sentido falar em “direito ao gozo”. O Nome-do-Pai, pivô do simbólico e agente da castração deveria  inscrevê-lo na dialética do desejo para que ele pudesse, num outro patamar,  ser alcançado. É esse o sentido da frase com a qual Lacan termina seu texto  “Subversão do sujeito e dialética do desejo”, de 1960. Dirá ali Lacan: “ A castração significa que é preciso que o gozo seja recusado para que possa ser atingido na escala invertida da Lei do desejo”[1]. Jacques Alain-Miller, em seu curso “O ser e o Um”, ao comentar tal frase, não deixa de sinalizar, com humor, seu contexto familiarista/edipiano. Dirá Miller ali: “ O gozo deve ser recusado: se for recusado, é para que possas alcançá-lo, meu filho...”[2]. E ainda: “Sabemos aonde isso leva. Do lado da sexualidade feminina, [por exemplo], isso consistiria em dizer: afinal uma criança é ainda melhor do que o órgão que lhes falta. E , uma vez introduzido o amor maternal a partir da castração, prossegue Miller, a coisa toda deslancha: a família, a sociedade, a religião, e assim por diante”[3]. Será  justamente ao abordar o gozo feminino que Lacan irá além da problemática interdição/castração articulada ao gozo. É que a equivalência freudiana bebê/falo se mostrará insuficiente para cingir todo o gozo do lado feminino, havendo uma parte dele  fora do significante, não se deixando apreender portanto na dialética falo/castração.
   Com “Intuições Milanesas II”,  Jacques Alain-Miller   indica que:  “a sociedade, em modificação na época da globalização, deixou de viver sob o reinado do pai”. A estrutura do todo, quer dizer, do todo marcado e circunscrito pela castração, cederá à estrutura do não-todo, o que significa que “não há mais nada que esteja na posição do interdito”. O que faz com que Miller fale nesse mesmo texto de uma feminização do mundo que não será uma prerrogativa das mulheres. Ou, de um resto produzido  mais além da citada dialética falo/castração que condensará, sem a marca da interdição, o gozo. Será então a partir daqui- de tais restos que concentram o gozo- que  falaremos em “direito ao gozo”. Por se constituírem sem a marca da interdição- que, os temperaria um pouco com o vazio da castração- é que eles poderão estar  mais ou menos a serviço da pulsão de morte. É pois de um circuito pulsional próprio, apresentado por Lacan apenas em seu Livro 11, Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, que se tratará aqui. Nesse circuito, a pulsão, em sua acefalia, só visará sua satisfação, pouco importando os meios e os objetos capazes de satisfazê-la. Será também seguindo tais elaborações que Lacan definirá, no Livro 20, mais, ainda, ao superego como um puro imperativo de gozo. Esse também será o mundo – o nosso- em que Lacan falou em subida ao zênith do objeto a, o que significa que o comando de gozar incidirá cada vez mais sobre o gozo do objeto a. Ou seja, um gozo que então poderá “não passar pelos circuitos do desejo, num regime a-dialético, sem trocas e sem palavras” [4].
Levado a seu extremo estaríamos então no regime de uma ordem de ferro, como dirá Lacan em seu seminário 21, Les non-dupes-errent, onde o discurso jurídico, as comissões de ética e os contratos  tentarão fazer as vezes do que uma regulação das relações sociais referida  no Nome-do-Pai  terá feito  algum dia.  Mundo portanto dos direitos , dos direitos a serem definidos e, eventualmente, exigidos. O direito ao gozo, portanto, cobrirá um amplo espectro de possibilidades   podendo inclusive se confundir com um puro , obsceno e feroz mandato do superego. Como se posicionará aí psicanálise ? Não certamente tomando tal ou qual partido, estrito senso. Inclusive por que nem todos- e isso é importante realçar- se equivalerão. Como se tratarão de exigências de matizes variadas do superego, eles serão mais ou menos marcados pela pulsão de morte. O uso de uma determinada droga, no entanto, no que diz respeito à sua aliança com a morte, não será igual ao uso de uma outra droga, por exemplo. Tocamos aqui, aliás, no tema do Fórum que se realizará no âmbito da Jornada. Ele também, de alguma forma, toca na questão dos direitos.
 Mas o que finalmente devemos destacar é que nossa posição, a dos analistas, seja num debate sobre direitos e gozos, seja num debate sobre políticas higienistas- que, justamente, tentarão erradicar a dimensão dos restos e do gozo presentes- deverá, sempre, se orientar por um termo básico, poderíamos dizer, nem  sempre  ressaltado por não se tratar  de um conceito, e que , por sua própria orientação, tenderá a fazer obstáculos – como uma questão, por exemplo- a puros imperativos superegóicos. É que,  por excelência, nosso tema e nossa orientação fundamentais serão os de uma orientação para a vida. “Um sopro de vida”, para dizê-lo como o disse recentemente Judith Miller em Buenos Aires. A psicanálise, dizia ela então, “é um sopro de vida que nos deixou Lacan”.Será daí, tentando fazer valer, mais além de um paradigma autoritário problema/solução tão típico das Terapias Cognitivo Comportamentais, isso, “um sopro de vida” nas ordens de ferro que tentam elidir o inconsciente e encerrar as questões em seus aspectos mais vivos e sensíveis .Abrir questões portanto, mais do que pretender encerrá-las de forma categórica e mortificante. É o que tentaremos fazer nesses dois dias.
Esperemos então que tal sopro possa se fazer presente  em nossos debates.
Obrigado e passo a palavra a Fernanda Otoni.

A PSICANÁLISE QUANDO TOCA NA DIVISÃO
FAZ POLÍTICA
Fernanda Otoni de Barros-Brisset

Sejam bem-vindos a 17jornada da EBPMG!
Quer a rotina das nossas Jornadas, que do centro do turbilhão que gera a sua organização, quer ainda que seu coordenador fale, supõem que à essa altura, ele ainda tenha o que dizer. É impossível de dizer como chegamos até aqui e saber o que esta Jornada vai entregar a cada um. Quer a gente saiba ou não, fato é que, ao falar, nós portamos a responsabilidade do que nós dizermos. Falar tem consequências políticas.  Essa é a força da orientação lacaniana.
 Realizaremos o I Fórum de Orientação Lacaniana sobre a questão das Drogas, quando psicanalistas reunir-se-ão com vários convidados de outros campos e práticas, visando fazer vacilar os significantes que asfixiam o debate e avançar mais além da segregação. Também realizaremos uma Roda Viva com Agnès Aflalo sobre temas que geram diversos impasses em nossa prática clinica e política. Pretendemos tornar publico, o que pode uma analise e suas consequências para cada um e para a cidade de modo geral.
Nessa direção organizamos a apresentação de 42 trabalhos que serão apresentados em 3 mesas plenárias e 9 mesas simultâneas. Os trabalhos transmitem, caso a caso, a manifestação da urgência que hoje atravessa a experiência da psicanálise, pura e aplicada, e a força da ação lacaniana intervindo a favor da solução singular, junto à diversidade de situações em jogo. Na plenária dos AEs, três analistas da nossa escola darão o testemunho da política da psicanálise a partir de sua própria analise, como cada um se vira com o elemento invariável e singular do seu sintoma, na cidade que lhe concerne.
Fomos ousados, confesso! A aposta na força do capital libidinal do analista, para com sua causa, sustentou essa ousadia. Saímos da rotina e estamos mais descobertos toda vez que damos um passo adiante e não recuarmos frente ao desejo de inscrever a força política da psicanálise, na cidade. A tarefa exigiu-nos suspender alguns automatons (não todos), e suportar alguns riscos.
Enfim, chegamos! Pulseiras em punho (não são de monitoramento eletrônico, ao avesso, falam a favor da liberdade de ir e vir). Sacolas a tiracolo - Griffe Suricato - não tem igual, são únicas e lindas!. Cabe muita coisa nesse saco. Alguns objetos e o que mais cada um quiser colocar de seu. Favor usar com moderação! Sabemos da natureza de semblante do objeto. A satisfação possível é aos pedacinhos, gota que brilha, oscila e cai.
Encontramos esse lugar, o CentoeQuatro, cru e nu: desabitado. Telhado e chão de fabrica, oferta do vazio em potencial. Nossa tarefa para chegar até aqui se valeu de um certo saber fazer com os imprevistos, as lacunas, os intervalos.
O conforto do Mercure não estava disponível. Então, decidimos ocupar o centro da cidade, estacionar na praça da estação e torná-la a arena pública onde, nos próximos dois dias, daremos o testemunho da política da psicanálise frente ao desconforto, ao impossível em jogo na era do direito ao gozo e suas consequências clínicas. Laurent esclarece que "tocamos nessa outra lógica, quando nos aproximamos dos temas próprios ao mal estar na civilização, dos fenômenos que tocam ao gozo. É o que se chama em sociologia e no jornalismo de questões de sociedade. Isso quer dizer que ninguém tem uma resposta à essas questões.!"[5]. São questões que não tocamos sem provocar a discórdia da linguagem, a diversidade de discursos, a divisão entre campos.
Certo é que quanto tocamos na divisão, isso interessa a psicanálise. Sabemos que se estamos  juntos, isso não significa que somos uma massa homogênea. Estamos aqui, UM por UM. A força do laço que nos reúne pode ser lida como entusiasmo, ainda que esse afeto não suture a brecha da nossa divisão. As controvérsias, diferentes posições e inquietações que poderão surgir nos debates entre nós, mostram exatamente a fratura no todo, que acontece quando cada um fala em nome próprio, suportando o desconforto da sua divisão. É desejável que seja assim! Organizamos essa jornada para favorecer a conversação.

O que ensina a experiência analítica sobre a política da psicanálise?
A política faz parte do percurso de uma análise, sempre que, no manejo da transferência, as intervenções do analista alcançam o gozo de cada um. Onde se fizer ouvir a ordem de ferro, a tirania do S1, ali, o analista abre uma brecha, por onde o que há de mais singular para o sujeito possa advir, como condiz à experiência analítica. A política da psicanálise diz respeito ao gozo, ao ato analítico e suas consequências.
Por outro lado, o que escutamos no setting analítico, um por um, não permite ao analista recuar frente aos impasses que traduzem o sofrimento em cada época, isso o entrega a tarefa de não silenciar. Freud e Lacan jamais silenciaram. A nossa responsabilidade não se reduz ao que acontece entre quatro paredes e exige-nos engajar como analista cidadão nos debates do momento atual.
O que pode a psicanálise quando as questões que dividem a sociedade expressam-se na forma singular de uma demanda de análise, enunciada pela angustia de um sujeito que, dividido ou submetido, procura um analista?
Via de regra, a divisão do sujeito se apresenta lá onde a matéria do gozo não se conforma à ordem simbólica. Numa análise trata-se disso; cada um tem que se haver com sua desordem mais íntima, inconfessável e sem igual no Universo.
Mas frente as exigências de um mundo organizado pela lógica do universal, como tratar o único, o singular de cada um que não cessa de tentar não se inscrever? A psicanálise sabe que o universal possível é o conjunto dos singulares, pois é impossível um conjunto de identidades uniformes. Nossa tarefa, como analistas, vive do oficio de operar para arejar os discursos, manter aberta a válvula de escape, os furos respiratórios, para dar passagem a exceção de cada um, por esse mundo diverso, sempre não todo uniforme.
Portanto, em questões de sociedade, não cabe ao analista silenciar-se ou manter-se neutro. "Aquele que pratica a psicanálise deve, logicamente, querer as condições materiais de sua prática".[6] A psicanálise só é sustentável, onde é possível praticar a ironia, questionar os ideais, onde não impera uma ordem totalitária e o sujeito tem o direito de falar o que lhe passa pela cabeça. Isso caminha em nome da liberdade de expressão e do pluralismo, orienta Miller.
Esse esclarecimento trouxe uma nova responsabilidade à nossa Jornada. Como transmitir o pluralismo dos nomes do pai, da causa de cada um e do direito aos pedacinhos de gozo que cabe a cada um nesse latifúndio? Célio Garcia, que será homenageado por nós nessa Jornada, é o lógico, deixou-nos uma pista: "levar o pensamento político a adotar a diversidade, integralmente (...)Eu penso, eu espero, no íntimo de meu coração de analista, que a psicanálise faça o pensamento político sair dessa limitação."[7]
Levei isso a sério! Tomei a diversidade como uma orientação para pensar a política da psicanálise. A psicanálise não é uma Igreja ou um exercito. Desde Freud, dispensamos o pensamento único e restamos com o que ensina a diversidade dos modos de viver o gozo, a singularidade do sinthoma de cada um. Quem faz análise sabe que ali se confessa e se trata de dar um destino ao gozo, sempre mais além das soluções coletivas.
Porém, hoje, em escala universal, o discurso capitalista promete e decreta para todos: Goze! Seja feliz!. A ordem de ferro é “para todos”, não admite exceções, e formata os protocolos da gestão democrática. Por um lado, brotam, desse universo hedonista, aglomerados de Um(s) que falam sozinhos e vivem da vantagem de não precisar de ninguém, de não ter que responder a nenhuma instituição ou ideal, sendo bastante e suficiente a parceria solitária com o objeto do gozo. Cada qual “no seu quadrado”, entregue ao autismo nativo do ser. Objetos fabricados em série, como pílulas dessa política, são engolidos compulsivamente através do consumo louco por felicidade. Mas isso não funciona tão bem, isso fracassa. A atualidade do sintoma se apresenta ao modo das compulsões, depressões, violência, acontecimentos de corpo e desamarrações diversas.
As engrenagens da burocracia de gestão movimentam-se, a mil por hora, visando ao controle e ao bem-estar social, pretendendo extirpar da ordem pública os novos sintomas, por meio de um “novo higienismo”. A tática da segregação atualiza-se em novos campos de concentração, agora separados por diagnósticos, obra de uma certa ciência, como Lacan previra.
Concordo com Miller: à medida que a sociedade de controle é reforçada, impasses inéditos dão à psicanálise uma nova urgência. É nesse momento, o atual, que a força política da psicanálise toma para si, mais do que nunca, a responsabilidade de dirigir-se aos outros discursos, jogando sua partida com o seu avesso, o clássico discurso do mestre; enfrentando a fórmula alterada do amo moderno, o discurso capitalista, ou mesmo frente aquele universitário, o incansável técnico avaliador cientifico. Não temos a resposta sobre o que é o bem, qual é a solução, etc. A nossa visada é transmitir o que a clinica ensina, a saber, que onde aparece a unidade uniforme e homogênea, existe o equívoco, ali habita a divisão não considerada quando se toma a massa como o todo.
Sabemos que experiência de uma análise, caso a caso, esclarece-nos sobre a natureza do real sem lei, do sexual que faz furo no saber. O determinismo do gozo desconhece a lei, o saber e a política. A pulsão exige seu quinhão, não importam os meios, e quando aparece, divide a ordem simbólica de uma época. Esclarece que há um furo nessa ordem. O laço social é um laço contaminado por essa divisão. E é mesmo por isto, que estamos em condição de fazer política, tal como a entendemos: A política do não todo, a política da clinica, orientada quanto a divisão que inaugura a experiência subjetiva.
 Nas questões de sociedade, também, notamos a presença incisiva do índice da divisão. São questões que interrogam a ordem dominante, a infringem, expõem sua fratura e dividem a opinião pública. Diria que há uma certa relação entre divisão e o fora da lei. Se no campo das diversas formas simbólicas, do discurso, do saber e da política, está a lei e a ordem; no campo da natureza pulsional, a substância gozante não é nada obediente, lá existe o real sem lei e a desordem.
Quando falamos das questões de sociedade, surgem os significantes que dividem. Onde se enunciam, iluminam a discórdia da linguagem, são insuficientes para esgotar a verdade que tocam. Drogas, por exemplo, é um significante dessa ordem. O que essa palavrinha comporta de verdade? O significante crime, traz também o impossível de tudo dizer. Falemos de drogas ou de crimes, a conversa não tem ponto final, caímos no desacordo polêmico das questões de sociedade.
E agora, José?
Visando "ativar por todos os lados o poder das lacunas”, provocar furos na ordem de ferro e fazer vacilar as unanimidades, passo a relatar um pequeno fragmento de um caso público.
Era um garoto que desde a adolescência fez sua marca por sua aderência aos ideais revolucionários. Trago para vcs seu currículo, disponível em páginas da web: foi líder estudantil, foi preso em função de seus ideais e deportado do pais em troca da liberação de embaixador estrangeiro. Fez plásticas, mudou de nome para não ser identificado. Quando voltou pro seu país, viveu na clandestinidade. Não cessava de infringir e contestar a ordem dominante (a direita de sua época), e novamente ameaçado, procurou abrigo em outro continente. Só retornou para a sua pátria com a redemocratização e ajudou a fundar um partido de esquerda. Foi seu líder. Seguiu carreira política: foi deputado, até assumir o cargo de ministro chefe da casa civil. Por todos os meios, nunca deixou de tentar realizar a revolução. Talvez esse fosse um dos nomes de sua causa mais íntima. Seu currículo traz a lista do muito que fez pelo seu pais. Fiel a sua causa, escreveu seu nome na história, seu currículo disponível na web termina aqui. Não fala mais nada.
Para saber mais é preciso recorrer tablóides. Dizem os jornais que, ao se dar conta que seus colegas parlamentares seguiam outra causa e não a sua, elaborou um plano para dar a cada um o que entendeu que pudesse causá-los e executou seu ato. Em troca, eles votariam a favor de seus projetos de governo, quiçá, planos revolucionários de um outro pais para se viver. Há controvérsias! Por seu ato foi julgado e condenado como o autor dessa pratica ilícita. E agora, José?
Essa vinheta de caso publico nos esclarece que a causa não faz par.  Contudo se alcança o campo social, quando o gozo de cada um se esparrama no tabuleiro publico e o transtorna, estamos diante de um fator de política, de modo mais amplo. A opinião publica se divide, os mecanismos de gestão da desordem são acionados e cada um responde pelo impossível de governar de seu gozo.  Com Freud, digamos, são as vicissitudes da pulsão. A história da humanidade encontra aqui sua matéria indizível. Para alcançar o fim, Freud afirma que o objeto da pulsão pode ser qualquer um. Isso só quer se satisfazer, por todos os meios. Entra nas brechas, extraindo satisfação de pequenas e pequetitas revoluções, a cada vez. Zé não roubou, era um jovem de classe média e continua sendo, dizem que não enriqueceu na política. É pena que ele tenha se deixado iludir, que não encontrou outros meios que os ilícitos para seguir com sua causa. É pena. É a sua pena. Zé, um jovem infrator. 
Como separar a causa revolucionária do Zé e o seu crime? Trago esse evento não é para inocenta-lo, longe disso. Mas para formalizar essa divisão que nos preocupa e, desde Freud, interessa a política da psicanálise.
De repente, os Zés da vida,  se dão conta que há algo de um não sabido em seu ato, que nem tudo está sob o seu controle. O caso do Zé, é exemplar: ele não é diabólico, ele é simplesmente humano. Se por um lado, nada é mais humano do que o crime, por outro, eu diria, não há nada mais democrático que o gozo. Nenhum partido está a salvo! Seja de direita, de esquerda, de centro esquerda, de centro, etc. Sejamos claros, o episódio do mensalão não é uma questão de partido é uma questão de sociedade. Sempre existe o risco do poder servir a cada um para gozar em causa própria. O STJ dividiu-se, ânimos aflorados, não foi possível julgar a todos como farinha do mesmo saco. Não há unanimidade. O impossível fura a tese da homogeneidade. De alguma maneira, ali se transmitira que cada um naquela maçaroca e, mesmo o líder, está sozinho, cada um legisla em causa própria. Esse episódio ensina que há um deslocamento fundamental entre política e verdade, tal como a entendemos.
O Um sozinho - o líder - elevado a condição de liderança, ao cair na esparrela do gozo, atualiza o que há de mais singular e não compartilhável. Demonstra, publicamente, que tem alguma coisa que não cessa e que não é obediente e a psicanálise sabe disso mais do que ninguém,  orientada quanto a divisão e as escolhas forçadas da pulsão. Como responder? Trata-se por um lado de dizer sim a responsabilidade de cada um para com seu gozo. Não existem inocentes. Sobre o gozo, os Zés da vida são chamados a responder. Contudo, é nossa responsabilidade, sustentar no debate publico o impossível de curar. Nenhuma sociedade se cura do humano, nossa pergunta não está do lado de como curar o homem do seu gozo, mas qual a forma de resposta da sociedade  frente a natureza do real sem lei, o mal que está na civilização, e a desordem incessante que está na base de seu fundamento. Com quais recursos uma sociedade pode contar para regular isso que não cessa?
Hoje e amanhã, em diversas mesas teremos oportunidade de discutir e questionar os modos universais de tratamento das escolhas forçadas da pulsão, quando está em questão os atos de violência, a intoxicação generalizada, drogas licitas e ilícitas, as indisciplinas relativas às regras escolares, às agitações do corpo infantil, os diversos espectros do autismo do ser, etc. Questionaremos o universal impossível através das respostas singulares da nossa clinica.
Cabe a psicanálise, por sua experiência, esclarecer a política mais ampla sobre o impossível em jogo quando se trata de tentar limpar das cidades as marcas da pulsão. Perguntaremos incansavelmente, a cada vez, porque essa ordem e não outra? Não existe uma cidade asséptica, toda pretensão de realiza-la culminou em fazê-la deserta dos humanos.
Essa Jornada nos convida a falar mais sobre isso!
Sua contribuição, ao debate atual, consiste em apresentar o que a clínica ensina sobre as contradições inerentes ao discurso, as divisões do sujeito, a natureza indomável da pulsão que não cabem em nenhuma forma, pois caminha sempre em conflito com a ordem simbólica de cada época. Isso nós não vamos resolver, mas podemos esclarecer.
A psicanálise torna-se assim, um instrumento político, ela cria e oferece ao mundo atual, o que ela sabe sobre divisão. O que ensina a experiência analítica, a psicanálise oferece e põe a disposição nos debates de sociedade. A psicanálise quando toca na divisão ela faz política.
Os analistas sabem que o que divide é o gozo mas mesmo os não iniciados na epistêmica lacaniana, também são esclarecidos. O povo sabe: As paixões nos dividem. E é frente a essa divisão que o sujeito toma a decisão que lhe concerne, responsável por seu destino.
Nessa Jornada procuramos criar as condições materiais para que a força do controverso encontre o modo de sua expressão. Quando está em jogo o império da dominação, isso acaba produzindo o sossego que faz dormir. Desejamos vocês,  bem despertos nessa jornada.
Cuidamos de fazer o programa para que cada um tenha as condições materiais para apresentar a força que advém de sua causa e de sua divisão e extrair alguma satisfação do seu direito à palavra. Procuramos, portanto, favorecer a diversidade e a divisão, como resposta da política da psicanálise aos impasses de nossa época!
Uma orientação lacaniana!

E por falar em diversidade e divisão... Algumas palavras sobre o intervalo:
Vocês  já passaram os olhos no cardápio de almoço do Suricato? E dos petiscos do jantar, do Duas vezes Porto? A comida é diversa, preparada para todos os gostos. Coisa de louco! Mas não é para todos, não!!! Reserve, com antecedência, sua mesa, para almoçar ou jantar. 
Outra dica, é fazer bom uso dos intervalos da conversa, e circular por aí. um convite para topar com o indizível da política da psicanálise, inclusive na extensão de nossos campos de intervenção. A política dos objetos e da parceria nos interessa. Vale emprestar seus olhos e deixar o olhar cair pelas obras e telas da galeria da Mostra de Arte Insensata ou achar fora de si o seu mais intimo no museu interior; quem sabe atravessar com o corpo o desfile das cenas e letras que se soltam do andaime das imagens e palavras sem sentido, do dicionário gozozo;  deixar-se perder nos livros da Livraria ou no meio dos objetos domésticos à disposição no Mercado Suricato.
A política da psicanálise adverte: Há salvação pelos dejetos!
Quiçá, nos intervalos, apareça o objeto e o vazio pulsante que o define, inventando outro lugar para viver a pulsão? Também convido-lhes a não sair correndo no final. Calma! Sejam pacientes e fiquem mais um pouquinho.  Primeiro porque livros novos estão sendo lançados para seu desfrute.Também está imperdível o esforço de poesia dos analistas, no SARAU de hoje a noite. E amanhã, ao recolher as sobras e restos na sua sacolinha, antes de partir, que tal reabrir os ouvidos para a voz de Irene e seu abraço com as cordas do violão de Douglas.  Um bom balanço antes de se despedir. Aliàs, diria Riobaldo, nessa vida a gente vive é no balanço...

Agradecimentos
Como disse nosso Diretor Sergio de Castro: São tantas as novidades... Que chego a tremer de entusiasmo! Tremor de entusiasmo, essa coloquei na sacola. Agradeço ao colega Sérgio de Castro por me transmitir, durante o percurso dessa Jornada, que é preciso saber fazer advir do risco a força de uma aposta e, com entusiasmo, seguir adiante. Agradeço a diretoria a confiança ao me entregar a responsabilidade da coordenação dessa jornada, agradeço por ter corrido esse risco!
Diante de tal tarefa logo me dei conta que precisava contar com uma tropa de elite cujo entusiasmo e ousadia não me permitisse recuar frente ao impossível. Essa jornada foi um momento de muito trabalho, possível pela felicidade do encontro e a afeição renovada com colegas de sempre, com a descoberta de novos colegas, que trouxeram alegria no percurso dessa Jornada pela franca amizade e disposição à invenções. Gente que faz! Não sei como agradecer!
Na comissão científica, pude contar com a conversa efervescente e rigorosa de Cristiana Pittella, Frederico Feu, Henri Kaufmanner, Jesus Santiago, Ram Mandil, Simone Souto e com a coordenação, viva e amiga de Lilany Pacheco.
Na comissão de divulgação, a batuta coube ao entusiasmo decidido de Cristiane Barreto e da sua equipe Adriane Barroso, Andrea Guerra, Bernardo Malamut, Delcio Fonseca, Ernesto Anzalone, Fabrício Ribeiro, Maira Freitas, Miguel Antunes, Samyra Assad.
O Boletim @DDito contou com a generosidade das idéias, revisões e editoriais animados por Jorge Pimenta e Lucíola Macedo. O mesmo digo da disposição ao trabalho da comissão de Bibliografia, por conta de Ilka Ferrari, Lúcia Grossi, Lucíola Macedo, Márcia Rosa e Suzana Barroso.
A delicadeza e cuidado de Mônica Campos na tarefa  da Livraria da EBP,  contou com o apoio de Débora Matoso, Fernanda Costa, Priscila Arantes e Raquel Marinho. Está um primor  nossa livraria, não deixem de passar por lá.
A comissão de Parcerias, deixou de ser de patrocínio e depois virou uma Festa, trouxe a surpresa de uma comissão inventiva que fez o que fez com a força do jeitinho mineiro de Miguel Antunes (seu coordenador) e sua equipe: Avilmar Maia, Guilherme Beltrame, Joanna Ladeira, Maria Inacia Freitas, Renata Dinardi, Virginia Carvalho.
As contas estão rigorosamente sob controle graças ao empenho e orientação da Alessandra Rocha que junto com Helenice Castro e Maria Aparecida Farage cuidaram com esmero de nossa Tesouraria.
Contamos também com o trabalho delicado e dedicado de Andrea Guerra e Regina Teixeira da Costa, de divulgação no Estado de Minas, pelo fizeram e pelo que ainda virá, agradeço. Amanhã o caderno pensar está imperdível.
O Sarau com os analistas é obra viva de Anamaris Pinto, Cristiane Barreto e Raquel Botrel. Hoje, a noite promete, me contem depois.
Enfim, tomar o Centoequatro vazio e transforma-lo hoje na materialidade que abriga essa jornada é obra de artista, não por acaso a coordenação dessa infra-estrutura coube a Luciana Silviano Brandão que arregimentou junto a si uma turma de gente que faz, Elisa Maciel, Andrea Aguiar, Daniela Pinto, Fernando Casula, Graciela Bessa, Kátia Mariás, Laura Rubião, Marcelo Quintão, Márcia Mezêncio, Maria Wilma Faria. 
Enfim, meu carinho inominável às comissões dessa jornada e suas equipe maravilhosas que toparam essa empreitada de conduzir o desejo dessa Jornada a se ajeitar com o possível e saber fazer com o impossível, como nos ensinou o velho Freud.
Também agradeço a disponibilidade da palavra bem dita dos nossos Consultores AD HOC - Antônio Beneti, Célio Garcia, Éric Laurent, Elisa Alvarenga, Maria Wilma Faria, Raquel Botrel, Samyra Assad, Sérgio de Castro.
E a Consultoria, a tempo e a hora, dos colegas: layout de espaço, Marcela Silviano Brandão; mídia digital: Ernesto Anzalone; na produção  de eventos: Fabíola Otoni, Fotografias e Filmagens, Fabrício e Alice Ribeiro. E no apoio cotidiano, na medida do impossível, Arlete e Mariana, nossas secretárias.
Essa Jornada demonstrou que a resposta política da psicanálise não interessa só aos analistas, interessa a muitos da cidade que faz causa comum com nossa. Falo da presença decidida da coordenação de saúde mental da Prefeitura de BH e dos serviços de saúde mental da cidade. Em nome de Rosemeire Silva, Giselle Amorim, Karen Zaqué, Marta Soares, Danielle Campos, Maira e Wesley, agradeço a todos que trabalharam para sustentar um pequeno recorte da Mostra de arte Insensata e do Suricato, entre nós. Essa exposição nos encanta!
Destaco, igualmente, o cuidado com o detalhe que inaugura a participação do Freud Cidadão nessa Jornada. Agradeço a Adriana de Vitta e Leticia Soares cuja ousadia das instalações interroga nossos sentidos.
Também contribuíram decididamente para essa jornada o CFP e CRP04 no apoio à discussão que nos propomos pra estes dias, bem como, a Escola de Francês Monica de Souza, a Scriptum, a Papelaria Patricia de Deus, a Morada Imóveis, a Credicom, DZBJeans, o Hotel Mercure, a UFMG e o Tribunal de Justiça de Minas Gerais.
Somos muitos implicados nessa força tarefa. Hoje estamos esclarecidos que uma Jornada de psicanálise se faz com o capital libidinal de cada um, a parceria de muitos e ... nunca é tarde para agradecer, não se faz sem a paciência amorosa, cotidiana e íntima da nossa pequena família.  Detalhe da maior importância. Conjugar amor e trabalho também orienta a política da psicanálise!
A vocês que fizeram acontecer essa Jornada, que agora se inicia, transmitindo a política da psicanálise  por todos os lugares, brechas e lacunas, da periferia ao centro da cidade, minha sincera gratidão! Sejam bem-vindos à XVII Jornada da EBP-MG.
Sem medo de ser feliz, desejo que esta Jornada seja surpreendente, como convém a experiência analítica.

Fernanda Otoni de Barros-Brisset - Coordenadora da XVII Jornada da EBP/MG

SAIBA MAIS SOBRE O QUE ACONTECEU
NA XVII JORNADA DA EBP-MG


Link paravídeo da homenagem ao Doutor Célio Garcia (Membro de Honra da Associação Mundial de Psicanálise e da Escola Brasileira de Psicanálise, Professor Emérito da Universidade Federal de Minas Gerais)



[1] LACAN, Jacques. Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano (1960). In: Escritos.  (1966)Rio de Janeiro;Jorge Zahar Editor,2003.p.841.
[2] MILLER, Jacques Alain. O ser e o Um, inédito, lição de  9  de fevereiro de 2011.
[3] IDEM, IDEM
[4] VERAS<Marcelo, Abertura das Atividades da Seção Minas Gerais da EBP, inédito, agosto de 2012.
[5] @DDito 2 - As escolhas forçadas da pulsão, 2012
[6] MILLER, J-A. Jacques Alain Miller em Página 12. Disponível em http://ebp-sp.blogspot.com.br/2012/05/anguille-en-politique-jacques-alain.html. Ultimo acesso em maio de 2012
[7] @DDito 5, maio 2012




Jornada EBP-MG