@DDito 17

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Boletim da XVII Jornada da EBP-MG


Faltam 16 dias para a XVII Jornada

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Caros leitores,

O número dezessete de nosso Boletim demorou-se além dos demais para ser escrito. Entre a Preparatória do dia 04 de outubro, e a elaboração deste novo número fomos interpelados pela notícia da morte, de forma brutal,  de uma jovem amiga de muitos de nós. Este fato desolador, e o ato bárbaro, impiedoso, absurdo que o perpetrou, tem reverberado entre nós como uma onda de tristeza, pesar, indignação e perplexidade. Temos tomado a palavra, a cada encontro preparatório, para dizer das consequências, na clínica, mas também na vida, disso que temos chamado, com Jacques-Allain Miller, de desordens do real. E eis que algo dessa des-ordem nos interpela de modo avassalador, na madrugada do último sábado para domingo. Seria impossível dar continuidade a nossa série de boletins, sem registrar a consternação e o profundo pesar, que esta perda nos causou. 

Em nosso 5º e último Seminário Preparatório,  Ana Lydia Santiago e Cristina Drummond apresentaram primorosas contribuições ao tema “O que a criança ensina?”. Tivemos na sequência, um animado debate.
Cristina Drummond abordou, a partir de duas vinhetas clínicas, o tema da “criança generalizada”, dos saberes que buscam adaptá-la ao mundo produtivo do “todos consumidores”, assim como as respostas do sujeito frente às políticas de homogeneização da infância.
Ana Lydia Santiago partiu da premissa de que a singularidade é o que orienta a política da psicanálise, para investigar, a partir de um caso clínico, as especificidades da fobia na clínica com crianças na atualidade. Trabalhou também questões que interpelam o analista em sua prática clínica: haveria, diante da feminização do mundo, mudanças no campo pulsional dos sujeitos? Poderíamos falar de um empalidecimento do inconsciente?
Neste número de @DDito, você poderá acompanhar os desdobramentos da contribuição de Cristina Drummond ao debate. Em breve, publicaremos o texto de Ana Lydia Santiago.
Boa leitura!
Esperamos você nos dias 26 e 27 de outubro no CentoeQuatro.

Lucíola Freitas de Macêdo
P/ Equipe Editorial de @DDito



O QUE NOS ENSINAM AS CRIANÇAS
Cristina Drummond


A infância é hoje uma questão do domínio público. Os saberes médicos, sociológicos e pedagógicos que se ocupam dela sofreram enormes efeitos do discurso da ciência, evidenciando o que Lacan chamou em 67, em sua Alocução sobre as psicoses da criança,da presentificação da “criança generalizada. A criança generalizada significa tomar o ser falante como objeto, sem palavra e sem responsabilidade. Não há lugar para a subjetividade da criança, e, propagando buscar o seu bem, esses saberes buscam adaptá-la ao mundo produtivo e do “todos consumidores”. As crianças são consumidores de gadjets, de tecnologias, de remédios, de moda, de professores, de aulas dos mais diferentes assuntos. Elas são entediadas, já que nesse mundo de ofertas, o desejo está ausente dos cardápios de ofertas.
Também presenciamos atualmente a um ataque generalizado à psicanálise por parte dos adeptos da terapia cognitivo-comportamental tomando como questão central o tratamento do autismo. Na França, há nesse movimento a pretensão de descartar o tratamento psicanalítico e promover legalmente que o tratamento se restrinja ao educativo. O projeto visa também proibir o ensino da psicanálise na universidade. Essa situação ilustra a importância de sustentarmos o valor da psicanálise em nosso mundo, já que o discurso analítico corre o risco de ser rechaçado.
Tomar nessa jornada como um eixo de discussão a questão das crianças, nos orienta Fernanda Otoni, é investigar a resposta delas diante das políticas de homogeinização da infância: qual o futuro para as crianças submetidas aos imperativos das avaliações escolares e científicas e qual a alternativa que nós, psicanalistas, podemos apresentar? Devemos tomar essa pergunta a sério e pensar que esse futuro já está desenhado e nele encontraremos exacerbadas as manifestações que já encontramos no presente: agressividade, desinteresse, tédio, solidão, depressão, narcisismo.
Sabemos que a infância é o tempo no qual o sujeito interroga o desejo do Outro e deverá construir sua resposta, que é sempre particular. Entretanto, cada vez menos há lugar para essa particularidade que muitas vezes fica ocultada nos sintomas, sem chance de se manifestar de outra forma. Quando dizemos que a política da psicanálise é a política do sintoma, isso quer dizer que uma experiência de análise deve ser a oportunidade de o sujeito acreditar no inconsciente, porque é no trabalho de decifração do sintoma que ele pode ter acesso às determinações inconscientes deste. E introduzir o inconsciente é ir em direção exatamente oposta à do discurso da ciência que busca de todas as formas forcluí-lo.  É no sintoma que reside a particularidade de cada sujeito, de cada história, de cada resposta ao real. Como Lacan nos ensinou, as crianças são antes de tudo respostas do real, do real da sociedade. Esse real se manifesta através dos abusos de nosso mundo, abusos colocados à disposição de todos pela ciência e pelas diversas soluções oferecidas para tamponar os fracassos da vida. Essas crianças, respostas do real, só se tornam humanas quando esse real é tratado por elas e com elas.
Freud destacava três missões impossíveis: educar, ensinar e analisar. Encontramos nos nossos dias uma resistência muito grande de se levar em conta a descoberta freudiana e uma busca de tratar os sintomas com soluções propostas pelo discurso da ciência. A educação tem se tornado na verdade uma reeducação do comportamento, e chega às vezes parecer transformar as crianças em robôs a serem controlados. Elas, por seu lado, não querem mais aprender. Não tomam a escola como um espaço próprio e o desejo de saber parece elidido. A violência é um sintoma da época presente de modo escandaloso nas escolas. Os políticos não sabem mais que projetos e que regras é preciso inventar para a aprendizagem da leitura e da ortografia. A escola plural não promoveu o desejo de saber. O número de analfabetos funcionais não deixa de ser contabilizado com algarismos próximos dos 50 % em nosso país que há muito tempo implanta políticas incisivas contra o analfabetismo. As crianças não cabem nos moldes que lhes são propostos.
Enquanto, diz Laurent, há vinte anos, as crianças iam à escola, no momento atual elas recusam o lugar que lhes é proposto e começam a desenvolver síndromes e transtornos de atenção que fazem com que elas estejam agitadas o tempo todo. Em determinados locais da América, um terço da população de jovens é submetida ao uso de Ritalina ou Concerta por sofrerem de agitação e são diagnosticadas como hiperativas. O problema é que não se sabe mais de que modo é possível conversar com essa geração. Por um lado os jovens se agitam e, por outro, se deprimem. É notável, sobretudo nos países asiáticos, as estatísticas de suicídio entre os jovens, assim como cresce de modo impressionante nesses países a recusa de ir à escola. As ditas fobias escolares, que anteriormente eram fenômenos marginais da educação, se tornaram fenômenos de massa em determinadas regiões. Hoje, encontramos jovens capazes de passar meses sem sair de casa.
Para essa nossa reflexão, gostaria de compartilhar com vocês um exemplo de minha prática que me ensinou algo sobre essa questão. É o caso de um sujeito que não é mais uma criança. Se eu tomo esse exemplo é também por pensar que esses sintomas não são novos, o que é atual é a maneira de tratá-los e, sobretudo, de silenciá-los.
Luiz é um professor universitário, doutor em matemática. Entre seus vários sintomas, tem algumas compulsões. A que nos interessa, porque toca na questão do saber e da pedagogia, é sua compulsão por leitura. Ele lê livros compulsivamente, sobretudo romances que devora e não larga enquanto não termina. Se a princípio ele apresenta esse sintoma como um signo de sua solidão de filho único, de seu interesse pelo saber, uma lembrança lhe permite ler a questão de uma maneira totalmente distinta. Ele conta que quando estava aprendendo a ler, sentia-se pior do que todos os meninos. Ele não sabe bem se seu sentimento vinha de sua dificuldade para aprender a ler ou do fato de, diferentemente dos outros meninos, não ter um pai, já que este deixara sua mãe quando ele era ainda muito pequeno e fora viver com outra mulher. Seus colegas já sabiam ler e aquelas letras ainda eram para ele enigmáticas, não fazendo qualquer sentido. Recorda muito bem da angústia que o invadia. Parecia-lhe impossível que conseguisse, em algum momento, decifrar aquele código. Sua mãe, professora, lhe sugere que ele decore um dos textos que seriam sorteados para um exame oral que constava de uma leitura em voz alta diante de todos os colegas. Ele escolhe um dos textos e o decora e, para sua alegria, foi justamente aquele sorteado. Naquele momento, ele apenas repetiu o que já memorizara, e fingiu que estava lendo.
Esta contingência que passa quase por um fato sem importância está na origem de seu sintoma. A partir de então, Luiz tem certeza de que não consegue ler em voz alta e precisa ler compulsivamente para verificar sua capacidade. Apesar de fazer isso o tempo todo, sua dúvida não termina. E que certeza é a sua? A de que, sustentando a verdade da palavra da mãe ele pode completá-la. Também com esse intuito, ele recusou a vida inteira procurar seu pai, tendo a certeza de que dessa maneira agradaria à sua mãe. Era isso que ela esperava dele.
Esse pequeno fragmento de um tratamento me parece falar um pouco do que uma criança nos ensina sobre o ato de ler. Ela nos ensina que seus sintomas são respostas que têm uma lógica particular. São índices de como cada um leu e respondeu ao desejo do Outro. Alguns sintomas permanecem assim durante anos, à espera de uma chance de poderem ser decifrados. Luiz, certamente, lia para não decifrar. Sua leitura era a leitura de sua mãe, de quem ele não podia se separar com o risco de cair num desamparo completo.
Assistimos na atualidade à maneira como a psiquiatria tem estigmatizado as dificuldades da criança, nomeando-as de distúrbio e de disfunção e tratando-os com contenção química e medicalização generalizada. Essa maneira de abordar o sintoma abre duas possibilidades no tratamento da criança. Na primeira visa-se uma normalização da criança; na segunda seu sintoma é tomado como um déficit, e a criança é identificada a ele. Temos, nas práticas que abordam a criança dessas duas maneiras, uma visão que identifica o ser e o corpo e que tem como resultado o apagamento do sujeito. Há nelas um total desconhecimento de que o corpo vem do Outro e não de um sentimento de continuidade. Essas práticas dão uma significação alienante para o sintoma do sujeito e o privam da relação com a causa de seu sintoma.
As crianças não ficam quietas, não têm atenção, estão desinteressadas e isso é lido como um distúrbio a ser tratado. Há uma proliferação dos tratamentos de controle do comportamento e dos protocolos de classificação e, nos casos graves, chega-se à contenção institucional através da internação compulsória. O que se esconde por trás de todos esses procedimentos, nos indica Eric Laurent, é que a criança é objeto de paixões mortíferas.
Em vários momentos de seu ensino, Lacan nos trouxe indicações a respeito do tratamento da criança. Em todos eles, ele buscou introduzir a questão do gozo, que é o ponto de real a partir do qual ele orienta a clínica. Seja quando ele o localizou no falo, seja quando ele buscou tratar do não todo fálico. Nada que seja da ordem do comportamento, nada que seja da ordem do universal, do para todos, mas uma clínica que toque o mais íntimo do sujeito, que toque sua relação com seu Outro que em muitos casos é obsceno e feroz.
Queria tomar agora um outro fragmento clínico para trazer o que Marina me ensinou a respeito do sintoma na criança. Ela vem, aos cinco anos porque tem muita angústia quando tem vontade de ir ao banheiro fazer xixi e se recusa a comer vários tipos de alimento. Tem um comportamento muito controlador, buscando evitar qualquer espécie de surpresa.
O pediatra recomenda um tratamento de condicionamento acompanhado de ansiolíticos para que ela durma com tranquilidade. Dessa maneira ela terá horários para ir ao banheiro e não se angustiará com possíveis surpresas. Uma nutricionista também propõe um trabalho de introduzir novos alimentos aos poucos, de modo que ela venha a se alimentar de maneira correta.
Quando vejo Marina pela primeira vez ela entra sozinha, tranquila mas sem muita coisa pra me dizer. Me conta que tem dor de ouvido. Digo que sua mãe me havia dito que também dor de barriga. Ela não rende o assunto. Pergunto se pode desenhar algo pra mim. Ela desenha uma menina, com chão, céu, nuvens, sol. A menina tem pintinhas no sapato, no vestido, no fundo do desenho, tudo para enfeitar. Mas ela não tem nome nem história. Seu vestido vai cair, mas logo ela desvia esse assunto. Ela me conta que foi sua mãe que escolheu sua roupa e vestiu rápido para não atrasar. Diz que gosta de brincar de Barbie, de vestir as Barbies. Sua brincadeira não tem enredo, é apenas trocar as roupas. Logo ela começa a desenhar alimentos. A empregada faz um leitinho delicioso pra ela, mas pra mim ela vai dar é uma gororoba. Uma gororoba que tem meleca, xixi, cocô e um pum.
Sua irmã toma leite na mamadeira à noite, mas ela acha que deu a dela para o papai noel, não tem muita certeza disso, vai procurar na gaveta pra ver.
Desenha uma menina, escreve seu nome com letras bem juntas atrás e diz que ia fazer uma cozinha, mas saiu errado. Desenha carinhas nas pontas dos dedos e conta até cinco em inglês. Seu pai é que lhe ensinou, porque sua amiga já sabia. Seu pai te ensinou a contar? É, eu demorei muito. Pergunto o que mais o pai ensinou a contar. Ela disse que ele conta a história dos pais dele todos os dias para ela dormir, da Maria e do José e na história a Maria sempre tem um bebê. Na verdade, ela tem vários, só seu pai é homem. Pergunto se ela já contou quantos. Ela não sabe.
Desenha o fogão e a geladeira, com “detalhes” no fogão. Os bebês não vêm do fogão, me diz ela, mas da barriga.
Vemos então que o corpo de Marina é um corpo onde os orifícios estão pouco orientados. E essa desorganização é provocada pela vinda de uma irmã da qual ela tem muito ciúme e que a obriga a buscar construir uma teoria sexual. Entretanto, ela não sabe contar essa estória, e o que surge é uma teoria onde bebês e alimento se confundem, eles entram pela boca no corpo.
O que o pai posteriormente me conta é a estória que contava a Marina todas as noites. Ele é realmente o único filho homem de sua mãe, depois de oito irmãs. Entretanto, essa mãe teve um câncer de mama e não deveria ter outras gravidezes, já que ela não poderia tomar medicamentos no período de gestação. Entretanto, como na estória de todas as noites, a Maria insistia em namorar o José e querer lhe dar um bebê menino. Enquanto o menino não chegava, ela ia tendo meninas. A cada vez ela tinha mais um bebê. Essa avó morre quando o filho tinha três anos de idade e ele não tem lembranças dela. O que ele tem é essa invenção, essa história de amor de uma mulher que quer dar tudo, até a própria vida como prova de seu amor para satisfazer o desejo de um homem. Uma mulher sem limites. A história divertida é, no fundo trágica, e é uma história que esse pai conta para sua filha ao mesmo tempo em que conta para si mesmo.
Marina desenha um calendário. Nele, cada dia tem um número e cada número tem um lugar. É dessa maneira que ela tenta cifrar esse gozo mortífero que ela herda com seu nascimento.
É possível medicalizar esse sintoma? É possível reduzi-lo a um sintoma comum a vários? O tratamento de Marina tem me ensinado que o tempo de tratamento não é breve, mesmo porque se ela agora pode se alimentar e se divertir com outras crianças, ela ainda trabalha parater mais autonomia, ser autora de sua história.
Se estamos falando de um mundo onde o desejo de saber parece ter saído de cena, onde não temos mais acesso ao alfabeto que permitiria a leitura, a posição do analista leva em conta que o desejo de saber se apoia sobre um não saber. Não basta estar na posição de escuta. A clínica psicanalítica do século XXI é uma clínica definida pela exigência de distinguir os modos de fracassar ante o sintoma. A experiência de análise é marcada pelo incurável da condição do falasser. Partir do conceito de sinthoma para orientar nossa clínica é um caminho indicado por Miller e que diferentemente de colocar em questão um “saber fazer”, gira em torno de um “saber se virar” com o sintoma. Diante da clínica, não nos inscrevemos numa linhagem técnica, mas nos colocamos diante de um singular sem um saber prévio e que dá lugar ao real como contingente. E isso leva tempo.
É preciso tempo para que o sujeito encontre seu alfabeto singular, seu calendário, sua série significante e possa dessa maneira se autorizar como responsável por seu gozo.
Para concluir, penso que a criança de nossos tempos nos ensina seu estatuto de dejeto, tanto do simbólico e como da ciência. E nos ensina que nossa política deve ser uma alternativa à indiferença da criança generalizada. Isso implica em dar lugar à posição do sujeito como sintoma. Essa posição é totalmente distinta da posição idealizante, irrealizante e mortificante da catalogação do ser falante como indivíduo medido e enquadrado nas normas da ordem pública. É essa a política que a psicanálise pode oferecer ao tratamento da infância, para que ela retome seu estatuto de “camada mais fértil da vida”[1]. Que nós, psicanalistas, saibamos colher os frutos do inconsciente que fala pela boca das crianças.








[1]Nicolas Behr, citado por Manoel de Barros em Escritos em verbal de ave, São Paulo: Ed. Leya, 2011.

 

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