Enxame #3 - 3. Zumzumzum do mestre


Loading – Eduardo Fonseca




A formação dos analistas 50 anos depois da proposição sobre o passe



Samyra Assad[1]



É possível extrair três dimensões a partir de todo um trabalho que se emparelha à formação do analista depois da proposição sobre o passe e do domínio do simbólico na civilização. Isso é permitido ler e depurar, por exemplo, na experiência de luta contra a regulamentação da psicanálise pelo Estado desde o ano de 2000 – ainda que outras tentativas tenham sido feitas nas décadas anteriores e posteriores a essa época –, em função de um projeto de lei elaborado por um deputado e pastor evangélico.

Arquivado esse PL, posteriormente surgiram outros e, com eles, os incêndios que apagávamos a cada novo PL que envolvia a teoria e a prática analítica. Daí se deduz uma repetição ou uma insistência indesejável, e sempre nos perguntamos o porquê disso. Ou seja, a que essa insistência responderia, diante da sede de sentido e de números inerente à era do Mestre Contemporâneo? Sobretudo, observa-se essa tendência homogeneizante atingir também o campo da formação dos analistas.

Logo, o Mestre Contemporâneo e a formação dos analistas estão em jogo. Porém, os representantes institucionais dessa causa prosseguem – agora não em oposição, mas acompanhando e intervindo na própria política – nas interferências desse discurso homogêneo na prática analítica. Sobre esse aspecto, é possível dizer que tudo permanece girando em torno de uma única e mesma coisa: manter a psicanálise fora de uma ética moral e a serviço do Estado.

Isso se manteve tanto no regime de uma interdição, do simbólico (séc. XX, metáfora, análise leiga), quanto no regime do gozo, do real (séc. XXI, metonímia, caráter ilimitado e universal da oferta quantificada de formação por internet). Ou seja, a psicanálise se coloca sempre como avessa ao discurso do Mestre, dado o caráter subversivo que lhe é inerente. O lado mais subversivo da psicanálise será para sempre objeto de uma espécie de sufocamento por parte dos discursos dominantes.

Uma perspectiva atual que se apresenta aí é a de que, mesmo a psicanálise não sendo regulamentada, o domínio de formadores religiosos está colocado e sendo exercido há muito tempo, e, na maioria das vezes, em silêncio. Ao longo dos tempos, portanto, percebeu-se que, à medida que íamos evoluindo no percurso dessa batalha em nome da defesa pela ética da psicanálise, tal como Freud e Lacan a deixaram como um legado, víamos crescer as indevidas apropriações de conceitos analíticos, tais como o de “análise leiga” (em que todos poderiam exercer a psicanálise, desde que obedecidos os critérios de alcance da carga horária), de modo que, por outro lado, à defesa da psicanálise sucedeu a necessidade de se formar opiniões. Era necessário informar (à sociedade, ao poder legislativo, às universidades, às Escolas, às instituições psicanalíticas, aos Centros de Saúde, à AMP, a Deus...), com fundamentos bem elaborados, sobre o perigo que a prática analítica corre ao ser usada para veicular ideais religiosos, ou mesmo o discurso religioso, o que hoje concluo existir em todo lugar. Está tudo dominado... Aqui, o Mestre Contemporâneo e o discurso religioso parecem se equivaler.



Mas, pelo que pude acompanhar a partir do ano de 2000, e ao longo desses cinquenta anos que se passaram depois da proposição de Lacan sobre o passe, em outubro de 1967, torna-se possível elencar três tipos de autorização na formação dos analistas, quais sejam: a burocrática, a grupal e o passe.



Autorização burocrática



Até hoje a psicanálise não foi regulamentada oficialmente, talvez pelo fato de a corrupção geral no Brasil ter tomado o lugar de toda a cena política atual. Mas não. Antes mesmo de concluir este texto, já estamos diante de outro projeto a fim de regulamentar a psicanálise – que deve ser o 5º ou 6º desde o ano de 2000 –, elaborado pelo deputado Telmário Mota, e outro que, felizmente, foi recentemente abolido, introduzido sub-repticiamente na Universidade Federal do Espírito Santo para que, dentro de uma universidade, pudessem ser distribuídos “títulos” de psicanalista. Nada mais incompatível com o lugar do psicanalista, que provêm das formações do inconsciente, de sua própria análise cujo tempo é sem duração, fora e longe do enquadre de carga horária exigida para isso.

Há ainda outro aspecto: uma autorização burocrática é dada basicamente via diploma, ou seja, a psicanálise é exercida por muitos que se formaram numa instituição presidida por um pastor evangélico, criada em 1996, denominada SPOB (Sociedade Psicanalítica Ortodoxa Brasileira). Desde aí, a cada dois anos, dois mil alunos são “formados” e, com seus diplomas e carteiras profissionais, ganham o “título de psicanalista”. Por conseguinte, cada um desses alunos funda outra instituição, tal como o presidente objetiva permanecer em sua posteridade e também como se deduz de um suicídio na eternização do ser de gozo do sujeito[2], como Lacan explicita na tragédia de Antígona. Parece se tratar de um suicídio (ou assassinato) duplo: tanto da religião quanto da psicanálise.

Quanto à religião, esse “suicídio”, de certa forma, já foi apontado por Freud em 1929, em seu texto “O mal-estar na civilização”[3], quando se refere a ela como uma das saídas para o sofrimento – entre outras saídas, drogas, sublimação, ciência, isolamento, amor sexual, estética e fuga para a enfermidade neurótica. Assim, em relação à religião, Freud se refere ao fato de que esta traz a formação de um sentido para a vida, mas, ao mesmo tempo, enfim se desmorona com o sistema religioso.

Quanto à psicanálise, esse indesejável destino burocrático-religioso tomado aqui como um suicídio, ou exposta a um determinado assassinato, se coloca no sentido de permitir que isso aconteça, que seja regulamentada, e mais, sob a égide da causa de ideais religiosos (o sacrifício e a culpa) e em nome do domínio do poder econômico ou de algum empreendimento particular.



Autorização grupal



Outra perspectiva é a de que a psicanálise já pode estar regulamentada pela autorização grupal de algumas sociedades psicanalíticas. Mantém-se uma hierarquia que facilmente pode se pressupor. Trata-se de um contraponto trazido pela distinção de uma orientação lacaniana, a saber, ao que se deduz da frase de Lacan “tudo deve girar em torno dos escritos que surgirão”.

Ainda assim, diferentes instituições, com suas respectivas orientações, de modo inédito, se juntam em torno de uma causa comum e inegociável: defender a psicanálise dos tentáculos burocráticos e religiosos. É um movimento constante[4], necessário, que abre espaço para outros discursos e alcança uma boa representatividade social e política, ainda que o enfrentamento com as autoridades estatais seja contingente.



Conclusão: autorização pelo passe

Reafirmo a aposta de que a psicanálise pura (autorização pelo passe) também possa intervir sobre os ideais sociais e políticos, explicitando o laço libidinal de cada sujeito com a formação analítica, singular por excelência, em detrimento dos analistas de papel. Outro tipo de prova para o desejo em relação à causa analítica.






[1] Samyra Assad: EBP/AMP
[2] LACAN, J. “O Seminário” In: A Ética da Psicanálise, vol. VII. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1988, p. 342.
[3] FREUD, S. “O mal-estar na civilização”, vol. XXI, Obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1969, p. 94.
[4] Trata-se do Movimento da Articulação das Entidades Psicanalíticas Brasileiras, com reuniões semestrais na cidade do Rio de Janeiro. Represento a EBP nesse movimento com outras quinze instituições psicanalíticas.
 





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