Enxame #2 -5.Ditos e escritos






Entrevista com Tânia Abreu[i]
 

Enxame - O mestre contemporâneo infiltra-se por imensos campos da vida atual, sob o discurso do “para todos”. Qual de suas caras você identificaria mais claramente?

 Tânia Abreu - De imediato, recordei o período no qual nos preparávamos para o VII Enapol, quando debatemos o império das imagens e suas conseqüências. Desde lá venho pensando que uma das figuras do mestre na contemporaneidade é a Internet e seus tentáculos: Google e redes sociais. Fato que comprovo no cotidiano de minha clínica, sobretudo com crianças e jovens, mas que também pude conferir e comprovar  recentemente, no Fórum Social Mundial, ocorrido em Salvador de 13 a 17.03.18. Um rápido passeio pelas palestras e programa deste Fórum e nos deparamos com as preocupações das autoridades , especialmente as universitárias,  com o poder da comunicação nos dias atuais, sobretudo com a mídia dita “oficial” a serviço dos interesses capitalistas. Uma pergunata não cessava de insistir: como promover a democratização da comunicação? Ponto de conjunção com o aggionarmento que vem se empreendendo no Campo Freudiano?

 Por outro lado, se antes o falasser procurava respostas para seus mal-estares na Ciência, hoje sem dúvida a fonte de tal pesquisa está no Google, localizando o “para-todos” na internet enquanto Outro. Há uma clínica internáutica? Se tomarmos o conceito de clínica como baseado na casuística e seus números, a internet, com suas receitas, diagnósticos e respostas baseadas no “para-todos” estaria mais altura do imediatismo contemporâneo que a psicanálise e sua bandeira da singularidade? A cada um sua receita on line, rápida e generalista, atendendo na justa medida o grau de angústia de cada um.

Sendo assim,  ao analista resta a oferta da palavra, do convite ao dizer, não importa o quê, para, ao servi-se do equívoco e não do sentido,  desestabilizar e furar esta rede de saber todo, que ignora o que há de mais singular a cada um: seu sinthoma. Resta ao analista a aposta na transferência.

Enxame - Para você, o que ocupa o lugar central no discurso do mestre contemporâneo?

Tânia Abreu - O desejo de controlar. Seja através do que se diz, do que se lê, do que se come o que o mestre quer é controlar. O crescimento vertiginoso da influência do mundo virtual na vida das pessoas tem como pano de fundo a queda dos ideais coletivos e ascensão do que Miller denominou o “individualismo democrático” e sua conseqüente desorientação.

 Entendo por “individualismo democrático” a idéia que ao mesmo tempo que se exige uma distinção absoluta do falasser em seu fazer, este é comandado por um processo comum.Para todos um mesmo caminho, uma mesma salvação ditados por um modo de gozo genérico em detrimento do singular do desejo.

Encerro deixando aqui registrado minha expectativa de que esta jornada consiga unir, através do discurso analítico, a cara do mestre contemporâneo com as diversas modalidades de democracia em nome das quais se vem executando pessoas, controlando e revistando crianças em prol de um “bem” coletivo, chamado segurança. As mais insistentes reivindicações contemporâneas como as contidas nas palavras de ordens das feministas que giram em torno do dito “empoderamento das mulheres”, estariam a serviço do respeito ao que há de mais singular em cada corpo de mulher ou da busca do fortalecimento de classes ditas minoritárias? Estamos fugindo da tirania do paratodos do discurso capitalista para cairmos no paratodos da minoria? Como pode a psicanálise se aproximar destes movimentos para demonstrar que os saberes se acumulam, circulam e se substituem, mas que sempre existirão problemas a serem solucionados, visto que nunca se encontra a justa medida para a relação do falasser com seu gozo?






[i] Membro da Escola Brasileira de Psicanálise/AMP  - BA.








Do mestre antigo ao mestre contemporâneo : o que há de novo

Para além da “torre de marfim”: os desafios no ensino do Direito

André Rubião[1]



Em O Primo Basílio, Eça de Queiroz criou um personagem conhecido no universo do Direito. O Conselheiro Acácio era um advogado pomposo e moralista, com seus trajes formais, ávido por citar expressões em latim e autores estrangeiros. A partir dele, Eça de Queiroz dirigia uma crítica aos juristas do século XIX, que vinham formando uma casta influente na sociedade. Como se dava a formação desses profissionais? De que maneira o “arquétipo do acacianismo” foi se transformando?

Durante muito tempo, Portugal não permitiu a criação de faculdades de Direito nas suas colônias. No Brasil, foi somente a partir da independência, em 1822, que surgiram as primeiras escolas, com o intuito de formar os funcionários da administração estatal, além de outros profissionais liberais. É nesse período que surge a “cultura do bacharelismo”, ligada à necessidade de os jovens passarem pelo ensino superior, em especial o Direito, para se tornarem respeitados e alcançarem cargos importantes na sociedade. O Conselheiro Acácio ilustra então esse novo grupo social que foi se formando no seio da burguesia, destacando-se das massas, criando suas redes de relacionamentos, com o intuito de fazer parte da elite dirigente. Eles eram, conforme o título do livro clássico de Sérgio Adorno, os “aprendizes do Poder”.

O ensino do Direito, durante décadas, foi pautado por esse contexto. Era a belle époque do positivismo jurídico, com sua confiança epistemológica, defesa da legalismo e separação entre direito e moral. O mestre era visto como o detentor de um “saber tecno-científico” e de um “modo de ser” que deveriam ser transmitidos para as novas gerações. O sonho de todas as famílias era ter o “seu filho doutor”.


Na história da educação, Maio de 68 é geralmente citado como o principal movimento de ruptura dessa perspectiva vertical e segmentada no ensino. Exemplo disso foi a Universidade de Vincennes, criada poucos meses depois, trazendo um contraponto ao conservadorismo da Sorbonne. Foi lá que Deleuze, Lyotard, Foucault, Chatelêt, entre outros, inauguraram um experimentalismo universitário, ao criar cursos interdisciplinares, valorizar o multiculturalismo e buscar novas formar de ser e de saber. Em Vincennes, como mostraram os documentários de Yolande Robveille, não era preciso passar o bac (uma forma de vestibular), existia uma expressa vontade de democratizar o ensino superior (trazendo a classe operária e os imigrantes marginalizados para as salas de aula) e havia quase uma interdição (entre professores, funcionários e alunos) de usar o pronome formal de tratamento – o vous, que corresponde ao nosso “senhor”.

Mas existe outra iniciativa, de origem latino-americana, que também merece atenção. Cinco décadas antes, em 1918, o Movimento de Córdoba, liderado pelo jurista Deodoro Roca, que acabara de se formar, ganhava as ruas da Argentina, com os estudantes exigindo o fim do autoritarismo dos professores, a democratização do ensino superior e a responsabilidade social das universidades. O “grito de Córdoba” acabou se espalhando, provocando uma série de reformas no continente, marcando uma ruptura institucional no ensino superior. O professor, sobretudo no campo do Direito, não podia mais se contentar com o status quo. Ele era parte integrante de um debate permanente, tal qual sugere o conceito de “extensão”, em busca da transformação social.

Ao longo do século XX, essa dinâmica se tornaria ainda mais complexa. Clark Kerr, o reitor de Berkeley que em 1964 viveu de perto a explosão do Free Speeach Movement, cunhou mais tarde a expressão multiversity, para se referir às diversas funções que a instituição e seus professores vinham assumindo. Para ficar na esfera do Direito, além das aulas e das pesquisas, havia escritórios de assistência jurídica gratuita, núcleos de mediação, grupos interdisciplinares, competições de argumentação, parcerias com empresas, com ONGs e com governos. No que toca o conteúdo ministrado, a complexidade não ficava para trás. O campo jurídico, antes circunscrito nas suas próprias regras, foi sendo invadido pela filosofia, sociologia, antropologia, psicologia, ciência política; isso sem contar os desafios mais recentes que as novas tecnologias digitais e a internet vem trazendo, como as start ups que buscam automatizar o trabalho dos advogados, as novas plataformas de pesquisa e comunicação, a governança digital, o processamento de big data etc.

Nesse cenário cada vez mais complexo, distante da “torre de marfim”, é importante refletir sobre o papel do mestre na sociedade contemporânea. No caso do Direito, o desafio parece ainda maior. Num país cuja estrutura de ensino superior segue presa à do século XIX, sem que os alunos possam percorrer diversas áreas antes de escolher sua profissão, o Direito continua sendo um porto seguro das Humanas, ou seja, o curso onde muitos estudantes desembarcam, indecisos, em busca de uma formação mais genérica capaz de abrir um leque de escolhas. Diante dessa heterogeneidade, não podemos deixar de lado tradição grega da “educação liberal”, no sentido de fornecer uma “cultura geral” capaz de transitar em diversas áreas do conhecimento. A profissionalização, da sua parte, apresenta-se como uma evidência da sociedade de mercado, exigindo do professor uma atualização permanente com relação à dinâmica do seu campo. Mas em ambos os casos, cultural e profissional, diante de uma sociedade com abundância de informação, o desafio parece mais o de sintetizar e provocar o interesse, corpo a corpo, na busca de insights, do que uma pretensão de esgotar o conhecimento. Afinal, para não sucumbir ao ensino à distância ou à inteligência artificial, é preciso lembrar das lições de Allan Bloom – seja nos seus livros ou na voz de Saul Bellow, prêmio Nobel de Literatura, que escreveu um romance inspirado nele –, mostrando que quando um aluno procura pessoalmente um professor existe a chance de uma “arte do encontro”, seja por meio de um conselho, de um livro indicado, de um sentimento de empatia, de uma ideia ou uma frase qualquer, que podem transformar ou trazer uma nova direção à vida das pessoas.      

Mas o grande desafio continua sendo o mesmo desde os tempos de Sócrates. Quando os sofistas aparecerem na Pólis, oferecendo cursos pagos, prometendo a transmissão de competências para o sucesso na vida profissional, houve uma enorme reação dos filósofos. Não se tratava de ir contra a visão antropocêntrica que os discípulos de Protágoras anunciavam. A valorização do homem foi importante para o desenvolvimento da época. A principal crítica estava ligada ao excesso de individualismo daquela proposta de educação. Como mostrou Werner Jaeger, no seu monumental Paideia, a grande virtude da cultura grega foi saber conciliar o desenvolvimento individual com a consciência de que era preciso viver de forma harmônica na coletividade. Passados mais de dois mil anos, essas questões continuam na ordem do dia. Num livro famoso, Burton J. Bledstein mostrou como a universidade norte-americana, sobretudo a partir da segunda metade do século XX, foi a principal instituição para formar o espírito de competitividade, mérito, competência, daquilo que ele chamou de “culture of professionalism” dos EUA. Sem desmerecer a importância disso, seja na formação dos alunos ou na atividade dos professores, não seria possível imaginar um equilíbrio maior na universidade, algo capaz de difundir para a sociedade uma “cultura da cidadania”?

Uma coisa parece certa. Diante da complexidade do século XXI, a reflexão em torno do Direito se torna cada vez mais necessária. Cabe ao mestre buscar compreender e transmitir sua paixão por essa dinâmica. Afinal, como disse o agregado José Dias, aconselhando Bentinho a ingressar nos estudos jurídicos: “As leis são belas, meu querido...”






[1] Doutor em Ciência Política (Universidade Paris 8);Mestre em Filosofia do Direito (Universidade Paris 2);Professor da Faculdade de Direito Milton Campos.Autor de História da Universidade: genealogia para um "modelo
participativo" (Almedina, 2013)






Jornada EBP-MG