L'INCS #5 - 4. TEXTO DE ORIENTAÇÃO

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Imagem: Janela – Giulia Puntel








Meninos e meninas não são (ainda) homens e mulheres
Sérgio Laia*



* Psicanalista; Analista Membro da Escola (AME) pela Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e pela Associação Mundial de Psicanálise (AMP); Professor Titular IV do Curso de Psicologia e do Mestrado em Estudos Culturais Contemporâneos da Universidade FUMEC (Fundação Mineira de Educação e Cultura).
  



Imagem: Marcia Schvartz – Batato -1989



O falo, uma falácia1

Fernanda Costa2



A queda do viril e o desprezo do falo



Lacan (1956-57/1995) também era atento às modas no campo da sexualidade. Em meados de 1957, no Seminário: a relação de Objeto, ele comenta que, do ponto de vista sexual, Hans se mantém em uma posição apassivada. Por isso, embora houvesse certa legalidade heterossexual da escolha de objeto, Lacan questiona sua legitimidade, por Hans não ocupar essa posição de forma viril (Miller, 1995/2017). Estilo de abordagem sexual, que Lacan (1956-57/1995) sugere estar bastante difundida em 1957, a ponto de afirmar que observa “profundas mudanças nas relações entre o homem e a mulher” (p. 432). Nesse contexto, ele cita as elaborações do filósofo Alexandre Kojève em O último mundo novo.

Kojève (1956) afirma que o “mundo novo” surge após Napoleão e a instituição da República. Com o fim das grandes guerras e grandes revoluções, um heroísmo político, militar ou social não é mais possível. Concomitante ao desaparecimento dos heróis, o filósofo observa, a partir dos romances de Françoise Sagan, o desaparecimento do homem viril e uma relevante transformação no campo da sexualidade.

Miller (1995/2017) retoma essas observações em Bonjour Sagesse, da seguinte forma: não existem mais homens, tudo o que se pode obter dos homens é um semblante viril. Para o psicanalista, essa observação “é de todo interesse” (p. 84), pois, o que “explica o sentimento de desaparição do viril é o prejuízo causado à função paterna” (p. 84). Declínio do pai que, como nos lembra Miller (1995/2007), havia sido notado por Lacan desde 1938 em Complexos Familiares, a partir do enfraquecimento da imago paterna. Logo, o que Miller (1995/2007) parece destacar da tese de Kojève é que, após o desaparecimento do pai, observa-se uma vacilação dos semblantes (no caso, o semblante viril).

Por que isso nos interessa? O que a atualidade de 1957, o “mundo novo” de Kojève, tem a ver com o nosso tempo? Para Miller (2013), em O inconsciente e o corpo falante, a grande mudança na ordem simbólica do século XXI é o fato de esta ser reconhecida como uma articulação de semblantes. Para ele, o declínio do pai tem como consequência que “as grandes categorias tradicionais que organizam a existência passam para o nível de simples construções sociais, voltadas para a desconstrução” (Miller, 1995/2013, p. 6). Assim, a característica do nosso tempo  “ não é apenas o fato de os semblantes vacilarem, mas eles serem reconhecidos como semblantes” (Miller, 1995/2013, p. 6). 

Desta forma, o que parece que Miller assinala no texto de 2013 _escrito, portanto, quase 20 anos depois de Bonjour Sagesse_, é que hoje foi dado um passo a mais. Não poderíamos, pois, interrogar se quando os semblantes são reconhecidos como tais não existiria aí certa desarticulação entre semblantes e gozo? Ou seja, não estaria o semblante fálico enfraquecido em sua função de “coordenar” algo do gozo? Talvez possamos pensar em uma radicalização do declínio do viril, uma radicalização da desconexão dos semblantes que organizam a existência, a orientação sexual, o que deflagraria uma depreciação do falo como semblante.

Sérgio Laia (2016), apoiando-se em Natalie Wülfing, aponta, entre as mudanças no século XXI, para uma espécie de desprezo e má apreensão do falo, que traz como consequência “o quanto a diferença sexual torna-se cada vez menos interessante para todo o mundo ou é tematizada apenas como uma espécie de equivalente da heteronormatividade” (p. 4). Não seria esse desprezo do falo uma das marcas do nosso tempo?





1 O texto na íntegra estará disponível na próxima publicação da Revista Curinga, n. 44: “Tempos de segregação”.

2 Psicanalista praticante. Mestre em Estudos Psicanalíticos pela Universidade Federal de Minas Gerais (Bolsista CAPES).





Bibliografia

Kojève, A. (1984) Le dernier monde nouveau Françoise Sagan. Disponível em:www.association-freudienne.be/pdf/bulletins/7-BF1_BIBLIOTHEQUE.pdf?phpMyAdmin=0k39wA0M-rYtTueZFUi-nHQMKb1

Lacan, J. (1995). O Seminário, livro 4: A relação de objeto (D. D. Estrada, trad) Rio de Janeiro: Jorge Zahar (trabalho original publicado em 1956-1957).

Laia, S. Seminário Preparatório para a Jornada da EBP/MG 2016. Belo Horizonte

Miller, J. A. (2017) Bonjour Sagesse In: Virilités  Revue de Psychanalyse no 95: Navarin Editeur. (trabalho original de 1995)

Miller J. A. (2013) O inconsciente e o corpo falante . Associação Mundial de Psicanálise. Disponível em:    wapol.org/pt/articulos/Template.asp?intTipoPagina=4&intPublicacion=13&intEdicion=9&intIdiomaPublicacion=9&intArticulo=2742&intIdiomaArticulo=9

Miller J. A. (2015) Em direção à adolescencia . Disponível em: http://minascomlacan.com.br/publicacoes/em-direcao-a-adolescencia/


 
http://jornadaebpmg.blogspot.com.br/2017/09/lincs-5-5o-que-se-escreve.html

Jornada EBP-MG