L'INCS #1 - 2. O QUE HÁ DE NOVO?

Gênesis - Sebastião Salgado


APRESENTAÇÃO DA JORNADA

O inconsciente e a diferença sexual: o que há de novo?

Ludmilla Féres Faria
Coordenadora da XXI Jornada EBP-MG.



Em Sapiens[1], Yuval Noah Harari (2016) conta que, há 100 mil anos, pelo menos seis espécies de humanos habitavam a Terra. Hoje existe uma só: nós, os Homo sapiens. Esse é o mote para o que o autor desenvolverá nesse instigante livro: como conquistamos o planeta; por que nossos ancestrais se reuniram para criar cidades; como passamos a acreditar nos deuses, nas leis e a ser escravizados pela busca da felicidade. Harari nos conta que, embora os sapiens já habitassem a África há 150 mil anos, apenas por volta de 70 mil anos atrás eles começaram a dominar a Terra e a levar as outras espécies humanas à extinção.
Segundo Harari, a maioria dos pesquisadores acredita que as conquistas dos sapiens foram produtos de uma revolução nas suas habilidades cognitivas, que possibilitou que se comunicassem de uma forma sem precedentes. Ele realça que a característica verdadeiramente única da nossa linguagem é a capacidade de criar ficções. Ou seja, para o historiador, o uso da linguagem não apenas para se comunicar foi o que nos separou das outras espécies e transformou a vida do homem.
Não é necessário, portanto, passar pela psicanálise para saber que a linguagem é o fator que mobiliza, mas também desorganiza o homem. Diferente dos animais, cujos instintos asseguram a sobrevivência, o homem precisa passar pela demanda articulada à linguagem, endereçada ao Outro, para satisfazer suas necessidades vitais. Assim, a demanda do Outro, ou seja, sua oferta, se impõe sobre essas necessidades, transforma-as em pulsões, que recortam as superfícies corporais em zonas erógenas. Esse circuito  faz do homem um animal doente e desnaturaliza sua sexualidade.
Lá onde, nos animais, está a reprodução como objetivo, no homem está o mal-entendido. Nesse sentido, o homem ou a mulher se distinguem de macho e fêmea. Tais postulados se coadunam com as afirmações freudianas sobre a existência de uma só libido, de natureza masculina – o que Lacan sublinha ao destacar que o falo é o único ponto de referência para os dois sexos no inconsciente. O falo será, por isso, o pivô da ambiguidade sexual: dois sexos anatômicos, mas um só princípio do sexo no inconsciente – o falo.
Mas, então, como a diferença sexual se inscreve no inconsciente? Primeiro, podemos dizer que há no inconsciente uma definição da diferença sexual que vem do imaginário, que se formula da seguinte forma: ter ou não ter o órgão. No segundo momento, o Outro vem ratificar, no Simbólico, essa diferença: é menino ou menina? Mas mais tarde, a criança terá que se haver com essa questão.
Se apenas um significante ocupa essa função decisiva na subjetividade do sujeito, o significante fálico, tudo o que se pode dizer do gozo passa por esse pedaço do corpo do homem, tanto para o homem quanto para a mulher.
E se o inconsciente não sabe nada do Outro sexo, podemos perguntar como um gozo que não é fálico, pode ser alcançado pelo tratamento analítico. Lacan se empenhou nessa questão e, com as fórmulas da sexuação, introduzirá um novo modelo de funcionamento para orientar sua clínica sobre a questão da diferença sexual. Assim, ele define a partilha dos sexos de acordo com duas modalidades de gozo que não são simétricas. O gozo fálico, do lado “imaginariamente” masculino, corresponde a uma experiência de satisfação vivida como um conjunto fechado. E o “gozo Outro”, do lado “imaginariamente” feminino, corresponde à lógica de um conjunto aberto, chamado por Lacan de Não todo.
O Não todo corresponde a um espaço definido pela impossibilidade de circunscrever o universal. Por um lado, é conectado com o falo (do lado do homem), cujo regime de libido é limitado, mas também conectado com o significante da falta no Outro S (A/), em sua relação  com a castração no Outro. Portanto, o gozo feminino está não todo sujeito ao regime fálico. A raiz do não todo é que ela esconde um gozo suplementar do qual a mulher nada sabe a não ser que sente, o que leva Lacan a dizer que “na mulher não toda, há sempre algo nela que escapa ao discurso” (LACAN, 1972-1973/1985).
Lacan sai, assim, da lógica simétrica, na qual o falo dividia os que têm e os que não têm, para entrar numa perspectiva que é assimétrica. O que significa que não precisam exatamente escolher um lado ou o outro a partir da imagem corporal, mas devem se “localizar em algum ponto do continuum entre os polos masculino-feminino e recalcar tudo o que não se encaixa bem nele” (Vieira, 2016). Ou seja, as formulas da sexuação retiram o caráter estático da repartição sexual e demonstram “a plasticidade dessas duas categorias”[2]. Essa plasticidade é o que permite Miller no seminário “O ser e o Um” afirmar que Lacan, em seu último ensino, introduz uma mudança de perspectiva levando o gozo feminino ao regime do gozo como tal. É o gozo reduzido a um acontecimento de corpo, fora do discurso, e “que Lacan generalizou estendendo-o, em um segundo tempo, ao homem” (Miller, 2010-2011).
O dito acontecimento se produz de maneira contingente e não dependerá de lei nem de causa alguma. É fruto da ressonância corporal, do encontro do corpo com os significantes do enxame de lalíngua. Miller demarca que Lacan introduz uma anterioridade ao Outro, à família, aos pares, o “Um só”.
Isso significa que, do lado desse Um, do lado do gozo, isso não fala. E o problema passa a ser como sair dessa solidão do gozo do Um para relacionar-se com o Outro. O que está em jogo é o corpo que funciona sem o Outro, unido a seu próprio gozo, e que se exibe de diversas formas. Podemos nos perguntar o que, no mundo atual, favorece a saída desse gozo solitário.
Quais os efeitos dessa mudança de paradigma na prática analítica? Se a interpretação supõe o Outro, como escrevê-la no registro do Um? Como pensar a experiência analítica diante desse Um?
Dado que não há um modo de relação sexual escrito, programado universalmente, busca-se apagar as diferenças ou encontrá-las nos comportamentos, no look, nos neurônios, a partir de distinções como: “homens são azuis, mulheres, rosa; mulher tem mil neurônios, o homem, um só.” O que propicia o aumento da segregação.
O analista deve, portanto, estar atento para não se deixar capturar por essas identificações imaginárias ofertadas a todo tempo e tampouco rechaçá-las de forma a poder perceber o real em jogo que não se deixa apreender.
Nossas Jornadas já estão em curso. Hoje fica demarcado o ponto de partida para os que querem se juntar a nós nessa pesquisa sobre o inconsciente e a diferença sexual: o que há de novo?

Referências

FREUD, S. A organização genital infantil: uma interpolação na teoria da sexualidade. (1923)  In: ___. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. v. 19. 2. ed. Rio de Janeiro: Imago, 1987. p. 179-187.

HARARI, Y. N. Sapiens: uma breve história da humanidade. Porto Alegre: L&PM, 2016.

LACAN, J. O Seminário, livro 20: Mais, ainda. (1972-1973) .Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.

MILLER, J.-A. A fantasia. Opção lacaniana, São Paulo, n. 42, p. 7-18, fev. 2005.

______. Seminário L’un-tout-seul. 2010-2011. Inédito.

VIEIRA, M. A. A anatomia e seus destinos. Colóquio da EBP- RJ. 23/09/16.




http://jornadaebpmg.blogspot.com.br/2017/04/lincs-1-3-o-que-nao-se-escreve.html




[1] Indicação de Sérgio de Castro em reunião da Comissão de Orientação da XXI Jornada.
[2] Ver texto de Jésus Santiago, “A plasticidade da sexuação feminina”, Opção Lacaniana, São Paulo, n. 65,  abr. 2013.

Jornada EBP-MG