Quereres XIII - Yerma

À espera da maternidade: sobre Yerma, de Federico Garcia Lorca

Fabiana Campos Baptista

A peça Carolina, de Lorca é inspirada na peça teatral Yerma, escrita em 1934 pelo espanhol Federico García Lorca. A peça é, no sentido aristotélico, um poema trágico e faz parte da trilogia teatral do autor, composta ainda por Bodas de sangue, de 1933 e A casa de Bernarda Alba, de 1936.

A peça conta o drama da personagem Yerma que, vivendo no interior de Andaluzía, leva uma “vida de espera”. Ansiosa por tornar-se mãe e obcecada pela ideia da maternidade que não chega, Yerma vive ao lado de seu marido Juan. Ele não demonstra nenhum desejo em ter um filho com a esposa e deixa isso evidente desde as primeiras páginas do livro: “Y bien sosegados. Las cosas de la labor van bien, no tenemos hijos que gasten” (LORCA, 2004, p. 13). Juan não quer ter um filho e vê a relação com a esposa, não como a expressão de um amor, mas como um fardo oneroso. Assim, Juan não deseja ter um filho, mas também não deseja Yerma e apenas cumpre o seu dever de marido ao ter relações com ela. 

Entretanto, ainda que Yerma saiba desse desejo do marido, sente-se impedida de buscar outro homem, envolvida que está em uma atmosfera movida por princípios moralistas severos. Com isso, a obsessão de Yerma pela maternidade cresce com o passar do tempo. Para Yerma o único sentido do casamento é a maternidade. As relações que tem com o marido nunca são para divertir-se, fato que considera inconcebível devido às suas intensas convicções morais: “Yo pienso muchas cosas, y estoy segura que las cosas que pienso las ha de realizar mi hijo. Yo me entregué a mi marido por él, y me sigo entregando para ver si llega, pero nunca para divertirme” (LORCA,2004, p. 29).

Durante toda a peça, Yerma desvela seu conflito interior, em que a ausência de diálogo com o marido e o desejo de ver sua feminilidade consagrada pela gravidez, encenam o drama desta mulher que parece cumprir o destino de seu nome. Em espanhol, “yerma” significa “estéril; o que não está habitado ou o que não está cultivado”.

Todavia, Yerma recusa submeter-se a essa fatalidade do destino e busca todos os meios para fazer valer seu desejo. Ela não se resignará e resistirá à ideia de ficar prisioneira de uma esterilidade da qual não se considera culpada. A personagem sai em busca de outras mulheres que têm filhos para saber o que ela poderia fazer para engravidar, mas seu esforço é em vão. Yerma não conseguirá ter o tão esperado filho, e cumpre o destino de seu nome, que revela que ela não poderá ser mãe.

Ao final, Yerma descobre que, na verdade, é seu marido quem é estéril. Desesperada, Yerma o mata e aquilo que ela não consegue construir com as palavras, se concretiza em ato, através do sacrifício do corpo do marido.
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Carolina, de Lorca é um monólogo autobiográfico que tem como foco abordar as transformações físicas e psíquicas que perpassam a vida de uma mulher em diversos momentos da gestação de um filho. O espetáculo mescla dança, vídeo e texto, de modo a investigar o universo da maternidade e alguns pontos de angústia vividos pela mulher durante este período. Inquietações, cobranças, espera e solidão são os significantes que aparecem na peça como pontos fundamentais trazidos pela atriz.

Quando descobriu que estava grávida, a atriz Carolina Corrêa havia acabado de começar uma pós-graduação em performance. Instigada pelo universo da maternidade, ela começou a orientar suas leituras para o tema e descobriu a peça de teatro Yerma, de Federico García Lorca. Bastante tocada e identificada com o texto do espanhol, Carolina resolveu realizar um espetáculo em que ela pudesse transformar a sua própria experiência da maternidade em um monólogo autobiográfico.

Durante os meses de gestação, Carolina manteve um diário, em que registrava a maneira como ela vivenciava as angústias e as transformações físicas e psíquicas que vinha sofrendo. O espetáculo nasce, assim, da junção de suas experiências, de entrevistas com outras mulheres grávidas e da ficção teatral de García Lorca. Os temas da espera e da solidão, tão presentes em Yerma, são pontos fundamentais em torno dos quais a peça gira.

Concepção: Carolina Corrêa
Texto: Carolina Corrêa e Léo Kildare Louback
Atuação: Carolina Corrêa
Dramaturgia: Léo Kildare Louback
Direção: Léo Kildare Louback e Antônia Claret
Direção de Imagens: Leonardo Barcelos
Iluminação: Cristiano Diniz Aguiar
Trilha Sonora Original: Marcos Frederico e Flávio Henrique
Realização: Grupo Dos Dois

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Não deixe de ler a contribuição da colega Maria Rita Guimarães que tece seus comentários sobre Yerma e Medeia. Clique para ler o texto

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