@DDito 5


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Boletim da XVII Jornada da EBP-MG



A sala estava pulsante, alguma coisa buliçosa agitava os corpos que buscavam tomar assento. As cadeiras foram insuficientes... Aconteceu! Estava na hora de colocarmos em debate a política da psicanálise.

Será que a psicanálise está correndo o risco de desaparecer do serviço público? Interroga Barreto. Nos dizeres de Célio Garcia, no fundo de seu coração de analista, esperamos que a psicanálise possa contribuir com a política levando-a a conviver com a diversidade, no interior dela mesma, e sem ocupar uma posição dominante, como ressalta Sergio Laia.

Essa é a nossa aposta!

Como podem ver a preparação para os trabalhos da XVII Jornada já começou, o entusiasmo é evidente. E as inscrições estão abertas!

No dia 24 de maio, o nosso colega Sérgio de Castro, Diretor da EBPMG, abriu os trabalhos preparatórios, convidando-nos a considerar que a psicanálise situa-se ao lado do direito ao gozo e lembrou-nos que no Fórum que realizaremos, no interior da Jornada, interrogaremos uma outra política: a da segregação. São temas que se articulam, se elucidam. Após Sérgio abrir a pista, pude entrar na conversa e apresentar que há algo de novo na XVII Jornada que estamos inaugurando, não há como recuar, pois no momento atual não é mais suficiente cochichar no ouvido dos príncipes.

Célio Garcia, Sérgio Laia e Francisco Barreto enviaram suas perguntas, via iphone e skype, fazendo presença na ausência. Jesus Santiago, Henri Kaufmanner, Lucíola Macêdo, Paula Brant e Elisa Alvarenga, ao vivo, tomaram a palavra e apresentaram suas inquietações. Essa conversa interessa muita gente, de vários lugares da cidade e de varias gerações.

Para você que não pode estar conosco nesse primeiro encontro preparatório, o @DDito 5, misturando textos e vídeos, registrou na íntegra a conversa que iniciamos.

Participe das preparatórias, faça sua inscrição e envie-nos o seu artigo. Atenção para com os prazos e junte-se a nós! Afinal, mineiro que é mineiro não perde o trem, uai!



Fernanda Otoni - Coordenadora da XVII Jornada


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Abertura dos Seminários da XVII Jornada EBP-MG

Sérgio de Castro



Boa noite a todos e bem vindos à abertura dos trabalhos preparatórios à XVII Jornada da EBP-MG, intitulada “A política da psicanálise na era do direito ao gozo” e ao 1º Fórum de Orientação Lacaniana da EBP-MG, que se chamará “Drogas: mais além da segregação”.Ele acontecerá paralelamente e no interior de nossa Jornada.

Como é possível que vocês já tenham percebido, trata-se de temas que se articulam e , de certa forma, se elucidam, sem propriamente se superporem.

Podemos dizer que a psicanálise se situa do lado do direito ao gozo. Como não se trata de uma prática normativa, ela conduzirá sempre a algum tipo de “absolução” para dizê-lo como Miller, do gozo, mas dando a ele um destino sempre além de soluções coletivas. Talvez possamos dizer que o dispositivo mesmo do passe não deixa de veicular uma política com relação ao gozo: cerni-lo, em seus fundamentos irredutíveis à fala, no que chamaremos então de sinthoma. Não estaríamos aqui no exercício – apresentado inclusive- do direito ao gozo?

Outra política- e da qual trataremos no Fórum- será a da segregação. Ela comportará sempre a criação de coletivos, articulados em torno de um modo de gozo que se definirá, por sua vez, por determinado significante mestre, ou S1. Acho importante observar que tal segregação poderá ser auto imposta, uma auto segregação, ou seja, os sujeitos submetidos a ela dirão se beneficiar dela de alguma forma. Grupos como “Mulheres que amam demais”, alguns tipos de comunidades gay, certos grupos de usuários da internet, grupos de portadores de síndromes produzidas na contemporaneidade – pelo DSM, por exemplo-, onde seus componentes se apresentam socialmente como “portador de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade”, tendo sua vida profundamente alienada em torno de tais significantes etc. Trata-se aqui de casos de auto segregação onde, a fim de evitar a angústia que abrir mão de tais S1 produziria, permanece-se numa espécie de garantia de que nenhuma outra questão em sua vida poderia ser relevante. Mas podemos falar também, como nos interessará no Fórum, de grupos segregados a partir de um outro social, via de regra em nome da ordem pública, que poderá cobrir um espectro que iria da polícia a políticas públicas de coloração higienista, como as que vemos se articularem nos dias atuais, especialmente no que diz respeito a usuários de drogas.

Tais grupos, via de regra, serão passíveis de algum tipo de sanção, que poderá ir da prisão a internações compulsórias etc. Em todos os casos citados o que podemos constatar serão sempre tentativas de criarem-se soluções identificatórias que visarão soluções coletivas, sempre em detrimento de um enfrentamento propriamente singular do gozo em questão. Portanto, uma política da psicanálise necessariamente visará um mais além da segregação, quer dizer, um mais além das soluções coletivas e identificatórias. Se entendermos a prática analítica como a prática que visa modificar a posição do sujeito com relação a seus significantes mestres, interessará pois flexibilizar, fazer vacilar a rigidez de tais soluções coletivas no que elas estarão sempre a serviço de exigências superegóicas e mais ou menos aliadas a pulsão de morte. A partir daqui podemos entender também a ênfase colocada por Eric Laurent, em recente entrevista concedida a Fernanda Otoni para o Boletim @dditto nº 2, na distinção entre um Fórum psicanalítico e um fórum militante. Creio poder dizer que um Fórum psicanalítico, ainda que capaz de propor ações e intervenções, deverá tentar se situar sempre além de soluções coletivas (que serão portanto segregacionistas) tanto quanto, como tentarei indicar, além do que poderemos chamar de paradigma problema-solução.Segundo o filósofo e lingüista Jean Claude Milner, em debate com Jacques-Alain Miller a partir de questões surgidas, justamente, num Fórum de Psis em Paris no ano de 2003, tal paradigma “começa por estabelecer que há um problema; começa-se levantando-o. Porque? Por que surge uma queixa na sociedade. É inútil tentar saber se essa queixa é ou não fundamentada; se ela é maciça, ela se estabelece como se fosse um axioma”. E daí demanda-se, geralmente aos políticos, uma solução. Ora, tais soluções, uma vez formulado assim o problema, será ela também, via de regra, segregacionista. No mesmo debate, Jacques-Alain Miller responderá a seu amigo Milner dizendo: “Há um problema? Quem o diz? Deve-se considerar que é um problema porque o outro lhe diz? Mas também não se pode dizer sempre que “isso não é um problema” (à la Magritte). Mas , admitindo-se que é um problema, a solução será a não solução, o impasse, mas admitido, consentido”.

Sempre achei tal passagem –  estamos numa lição do curso de 2003-2004 de Jacques-Alain Miller publicada no Brasil no opúsculo intitulado Você quer mesmo ser avaliado?- de um agudo poder de dissolução. Dissolução de respostas de vocação universal, identificatórias e, enfim, segregacionistas. Um Fórum psicanalítico, portanto, – diferentemente de um fórum militante, seja ele de direita ou de esquerda- deverá conceber propostas e ações, que visem colocar em questão, ao ouvir pessoas das mais diversas procedências e matizes ideológicos, soluções identificatórias coletivas, quer dizer, segregacionistas.Abrir novas questões, mais que tentar soluções que visem fechar as que se produziram até então. De certa forma, ao tentarmos sair do que indiquei que seria o paradigma problema-solução, deveremos sempre tentar evitar qualquer espécie de furor em produzir respostas e soluções. Convém lembrar que o horizonte de toda solução, ao tentar solucionar definitivamente aquele problema, seja também a solução definitiva, quer dizer, a final. E soluções finais e definitivas, bem, estas já sabemos bem a que conduzem e o que as orientam.



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Há algo de novo na XVII Jornada da EBPMG



Fernanda Otoni  de Barros-Brisset





A XVII Jornada, isso, não sai da nossa cabeça. Estamos todos adictos à essa causa. E esperamos chegar em outubro, com um número ainda maior de pessoas inscritas a esse movimento da política lacaniana, adicionados à Jornada.

Inauguraremos um novo conceito de Jornada.  Não sabemos se será a primeira de uma série ou se toparemos essa empreitada uma única vez. É uma novidade para todos nós, uma experiência onde buscamos demonstrar a contribuição da psicanálise à sua época, conjugando sua força clínica e epistêmica à sua força política.

O funcionamento dessa jornada privilegiará a conversação sobre impasses atuais que interrogam nossa sociedade. Impasses que tem dividido e embaraçado a arena política e as conseqüentes deliberações de interesse público. São questões de sociedade que não tocamos sem provocar a discórdia da linguagem, a diversidade de discursos. E isso quer dizer que são questões sem respostas, conforme esclareceu Laurent em sua entrevista "o tratamento das escolhas forçadas da pulsão", publicado no @Ddito 2.

É com esse espírito que realizaremos nosso 1° Fórum de Orientação Lacaniana “Drogas: para além da Segregação”, onde a questão da legalização, descriminalização, tratamentos e políticas públicas estarão em pauta. Essa conversa nos interessa de perto. Como ensina Miller, a psicanálise lacaniana, não é de direita, nem de esquerda, não é reacionária, nem revolucionária. Ela é subversiva, ela visa a subversão do sujeito. Estamos esclarecidos que "é muito mais quando o sujeito é subvertido que ele é removido de sua matriz imaginária, que ele sai da gaiola de seu narcisismo, é que ele tem uma chance de fazer frente a todas as eventualidades"[1]. Essa é a visada da psicanálise de orientação lacaniana, seja na ação da psicanálise pura ou aplicada, seja, na Escola ou na ação dos analistas na cidade.

Onde se fizer ouvir a ordem de ferro, ali o analista opera na produção de uma brecha, por onde o sujeito possa advir, como condiz à experiência analítica. De intervalos, lacunas, no espaço de um lapso: é com isso que a psicanálise se vira. "Lacan é contra tudo que for a favor", esclarece Miller. É contra toda ordem totalitaria e a segregação que o acompanha, os ideais de homogeneização e do pensamento único, esse rolo compressor sem limite e sem furo.  A causa de cada sujeito é única, sem par. Tanto mais desejável que os pensamentos sejam vários, as possibilidades múltiplas, os recursos diversos, para que cada um possa se servir ao seu modo.

Nessa linha, informamos que a nossa convidada internacional, Agnès Aflalo, não fará conferências. No lugar da palavra de um só abriremos à conversa entre vários. Nossa Jornada dará lugar a uma entrevista ao vivo com Agnès Aflalo, sobre temas da atualidade, tal como a polêmica atual sobre o tratamento do autismo, sobre o DSM-V, a medicalização da população, a regulamentação da psicanálise, as políticas universalizantes e comportamentais para controle da população, etc.

Agnès tem se destacado por sua participação vibrante e decidida, de fundamental importância nos debates públicos, levando a contribuição da psicanálise nos fóruns da comunidade européia. Será um prazer recebe-la para participar conosco da conversação sobre questões que impactam a nossa sociedade.

Como vêem, tem algo de novo nessa Jornada. Uma passagem de Miller, publicado nos diários das Jornadas de 2009 na ECF, serve bem ao nosso momento atual: “Nessa jornada haverá risco, não há rotina nisso. (...) No entanto não é uma tentativa gratuita e caprichosa, as contingências nos levaram até aqui, trata-se de um ensaio que articula vários elementos inéditos."

O local da Jornada é inédito: "A política da psicanálise na era do direito ao gozo” vai acontecer no meio da cidade, na praça da Estação, no Espaço Cultural 104, onde era o antigo chão de fábrica de tecidos. Até agora, o que temos são espaços abertos, um vão vazio, aguardando a montagem que inventarmos. O que vamos tecer nesse novo lugar, não sabemos ainda ... será por certo um tecido acolhedor...um lugar que nos convide a falar com o Outro de nossa época, como propõe Judite Miller.

Convidamos para ocupar esse espaço de conversação entre nós, todos os que desejarem estar conosco para interrogar e fazer vacilar o pensamento único e as respostas higienistas, segregativas para o controle das populações. As últimas conversações realizadas pela seção clínica do IPSMMG, tem demonstrado que acolher a diversidade é um modo de fazer surgir o irredutível, o elemento invariável em torno do qual giram os diversos discursos, e é essa evidência que faz abrir na ordem de ferro, uma porosidade viva, por onde opera nossa força política em favor do um por um.

Informo que as inscrições estão abertas!  Estamos oferecendo, aqui também, uma diversidade de modos para realizar a sua inscrição nessa Jornada.  Faça à sua maneira. 4x, 3x, 2x ou de uma única vez. Ao gosto do freguês. Se você estiver mais longe e não sabe como se aproximar, onde ficar, o que fazer, estabelecemos uma parceria com a A&C Viagens para que ela ofereça diversas opções para você encontrar o seu jeito de chegar e participar.

J-C.Milner pondera, vocês verão adiante, que as leis de mercado se reduzidas a si mesmo não devem fazer medo, elas podem ser úteis. E por isso mesmo, num ano de política, não faltarão também aqui os mosquitinhos para panfletagem, que já se encontram à disposição de vocês. Divulguem junto a seu campo transferencial. Não há rotina, portanto, façam como desejar, inscrevam-se e envie seu trabalho, com a sua força única, inserindo-o nesse movimento da política lacaniana.  Vários colegas de BH e do interior de Minas, bem como de outros Estados do Brasil estão se arrumando para vir. Assim esperamos realizar uma Jornada marcada por uma conversa animada e forte, por sua heterogeneidade.

Quanto ao tema dessa Jornada, uma primeira apresentação vocês encontrarão publicada na agenda deste semestre. Não pretendo repeti-la. Os argumentos e eixos de investigação para envio dos trabalhos para a comissão científica estão publicados no @DDito 1. Aliás, sigam o @DDito, pois estamos lançando no boletim o que há de novo, o que está acontecendo no momento atual de sua organização, com textos, entrevistas, bibliografias diversas e informações de um modo geral. Adicione-se também ao nosso facebook e twitter. Insira ali seu comentário, sua sugestão, participe!

Para hoje, trouxe alguns elementos que recolhi das leituras e conversas que tenho feito com diversos colegas sobre o tema. Apresento-lhes algumas considerações, enlaces frouxos entre recortes de leituras.  Melhor dizendo, inquietações.   Como a psicanálise pode contribuir e intervir no campo da política? Qual tem sido a sua influência? Podemos constatar que a psicanálise de orientação lacaniana, cada vez mais, tem participado dos debates políticos, lançado sua palavra, tornado público seu testemunho. De Freud a Lacan, o que mudou? A relação da psicanálise e a política continua a mesma, no século XXI?



Não basta mais cochichar no ouvido dos príncipes! 

Psicanálise, ciência e política no século XXI



Sabemos que alguém quando se submete à experiência analítica, se afasta da vida pública para mergulhar na experiência singular que acontece na “confidência dos dois parceiros”. Por essa via, diz Miller (2003), o analisante pretende encontrar aí o alívio de alguns males íntimos, os elucidando através dessa experiência.  Contudo, Freud já previra que a psicanálise iria além do que acontece entre quatro paredes, que gradualmente ela produziria, mais adiante, na sociedade, o que ele não hesitou em chamar de uma, elucidação psicanalítica, e que resultaria "numa tolerância social inédita, precisamente, no que diz respeito às pulsões."[2]

Miller (2003), à esse propósito comentara uma decisão do Tribunal dos EUA que acabou com as leis que puniam as condutas sexuais desviantes, pois a corte concluiu que o Estado, com a criminalização das condutas sexuais privadas não acabaria com a sua existência e nem controlaria o seu destino. Fui verificar como estava essa questão recentemente, depois de dez anos, e não levei um segundo para descobrir que o casamento gay está em discussão, inclusive, no epicentro da luta pela presidência dos EUA.

Parece incontestável que o acontecimento Freud colocou a pergunta sobre o sexual na boca do povo. Ainda que não exista consenso, fala-se disso. Se a política toca a matéria do gozo, a opinião do povo se divide. A substância pulsional esparrama-se no tabuleiro, perturbando o jogo político. Tem os que são contra, os que são a favor.

Barack Obama declarou ser favorável, seu adversário, contra. O The New York Times, do dia 11 de maio de 2012, publicou uma matéria de Peter Baker afirmando que enquanto fartos dados apontam que heterossexuais não querem casar ou adiam ao máximo o casamento, gays se mobilizam para gozar desse direito. Enfatizava Baker, que da arena social e política aos tribunais, o que pareceria impensável nos anos 90 está se tornando cada vez mais comum. Homossexuais servindo ao Exército, casando e adotando filhos, enquanto a geração mais jovem não entende o porquê de tanta polêmica. Exemplo de uma tolerância social inédita frente a pulsão e seus destinos.

A influência política da psicanálise pode ser percebida a longo ou médio prazo. Miller (2003) dirá que a “Sua influência é como um contagio, uma dilatação tranqüila, a expansão de um perfume, um espírito invisível (...) Alguma coisa teve lugar em Freud que é da ordem do consentimento e não apenas da confissão”[3]. O mundo, hoje, é esclarecido quanto à força das pulsões. Isso que se satisfaz de qualquer jeito. Essa elucidação, nós as devemos ao acontecimento Freud.

Foi então, cochichando no ouvido dos príncipes, na forma de uma dilatação tranqüila, que a psicanálise contribuiu para mudar o mundo no século XX. Tempo florido simbolicamente, onde as ideologias faziam marchas cujos slogans não nos deixam esquecer: "Paz e Amor! Sexo, drogas e rock and roll! É proibido proibir! “A queima dos soutiens” na praça pública, cuja queima nunca aconteceu, mas deu seu recado -  ideologia eu quero uma pra viver! Refrão cantado pelas caras pintadas que marcaram no rosto as cores de um Brasil, sem Collor, em 1993. Movimentos que exalavam odores, dentre eles o perfume da psicanálise. Souvenirs do século XX. 

Contudo, o simbólico não é mais o que era no século XXI e entramos numa nova era, onde é menos a felicidade coletiva o que se busca e mais o gozo do eu sozinho. Miller (2003) constata que nós não estamos longe de ver inscrito como um direito do homem, o direito às pulsões, a seu gozo em si. O gozo passou a ser uma questão de política, o que era da ordem privada se tornou publico e a psicanálise não pode mais manter a mesma distancia da política como o fez no século das ideologias. Está em jogo, um vasto movimento, um destino da modernidade”[4].

E Miller aponta o dedo na direção da ciência, bem como fez Lacan de 1973. “O discurso da ciência tem consequências irrespiráveis para o que se chama a humanidade. A psicanálise é o pulmão artificial com a ajuda do qual tentamos assegurar o que é preciso de gozo no falar, para que a historia continue." E Lacan continua: “se não fosse o estado de insuficiência e de confusão onde estão os analistas, o poder político já teria colocado a mão nele”.[5] Lacan, naquela entrevista, alerta aos analistas que ficar na mão do poder político, retiraria deles qualquer chance de ser o que eles devem ser.

O que devem ser os analistas? "Compensatórios", dirá Lacan – os que trabalham para manter o buraco aberto para que não falte o ar. Operadores da subtração. Em verdade, desde o seu inicio, a força política da psicanálise recolhe seus efeitos exatamente por destituir a crença na solução universal, nos imperativos da tradição, no pensamento único, diluindo as identificações em massa, sustentando a vitalidade de um furo operante, um vazio pulsante. Portanto, lá onde vigora a fórmula para todos a operação analítica, subverte, para que possa acontecer por essa brecha a solução de cada um. Operar como “pulmão artificial”, palavras de Lacan, é abrir lacunas para passagem no falar de um gozo singular, assegurar esse direito de se manter vivo, frente ao poder asfixiante e normatizador do discurso da ciência.

Isso quer dizer que a operação analítica, a psicanálise é contra a ciência? Claro que não! Aliás, a psicanálise é consequência da emergência da ciência, "ela mesmo seria impensável antes da idade da ciência".[6]

Na última conversação que fizemos no Instituto de Psicanálise Saude Mental de Minas Gerais[7], Jesus Santiago levantou uma pertinente questão: Será que poderíamos falar de discurso da ciência? Ou só podemos falar de discurso da ciência quando esta está enodada ao discurso capitalista. Essa brecha que Jesus introduz entre discurso e ciência pareceu-me fundamental para nossas elaborações quanto a política da psicanálise na era do direito ao gozo, pois não me parece que podemos enfrentar os impasses trazidos por esse tema sem tocar na ciência e no discurso capitalista.

A partir desse ponto de inflexão, lançado por Santiago, lembrei-me da leitura recente que refiz de Jean Claude Milner (2003), por ocasião dos Fóruns psis. Ele vai dizer que o “cientificismo” e as leis de mercado quando reduzidos a si mesmo não devem fazer medo; podemos fazer bom uso deles. “Mas quando a gente combina um com o outro, quando a gente os confunde, um monstro surge”[8] E se ai juntarmos a administração, encontraremos o estado atual da nação que se sustenta por esses três vetores: o cientificismo, a ideologia de gestão guiadas pelas leis de mercado e a regulação administrativa ilimitada. Segundo Milner, uma única palavra mestre faz o laço entre eles: a avaliação.

“O avaliador administrativo tem todos os direitos e reinvindica o direito ao respeito, pois ele faz tudo a luz da ciência. O cientificismo o garante. O avaliador comerciante/mercadológico tem todos os direitos , não somente aquele do mais forte, mas também o do mais sábio, ele faz tudo em nome do bem publico. O grande funcionário o garante. O inventor de regulamentações, tem todo o direito, sobre os corpos e sobre as almas, sobre as coisas e sobre os homens; a lógica cientifica e a lógica contábil o garante.”[9]



Essa tríplice aliança, entre a ciência, o mercado e a administração pública parece então transformar e reunir cada um desses campos em função de um só discurso, o capitalista, que gira tendo como agente os diversos índices do "mal viver", na promessa de produzir e distribuir o bem viver para todos, escala infinita. O discurso capitalista a partir dessa aliança passou a reger a lógica política, precisamente, fazendo sua injução no campo das pulsões.

Jorge Aleman, recentemente numa entrevista ao Jornal Clarin (26/04/2012), também procurou distinguir a concepção primeira de ciência e o que ela se transformou. Ele dirá que “a ciência - no sentido moderno de sua acepção – tinha alguma relação com a verdade. Na experiência da ciência estava o descobrimento, a subjetivação, a fundação de um novo lugar. Através da ciência sempre aparecia um novo objeto no mundo.” Contudo, parece ter havido uma mudança sensível aos que bem observam as reversões da historia. Hoje, a ciência acontece menos no primeiro sentido de sua acepção; testemunhamos um investimento maciço em uma prática científica de caráter protocolar, acéfala, aquela que está empenhada em produzir tecnologia. Mas a ciência não é uma técnica, afirma Aleman.

“A técnica não tem nenhum objeto. Ao contrario, é a integração de todos esses saberes a serviço de destruir a impossibilidade, a serviço de produzir um novo tipo de realidade onde o impossível não tenha lugar. Na ciência havia impossível, havia limite."[10]

Digamos que a relação entre ciência e verdade, na acepção primeira do termo,  alcançou o que Lacan explicita no sem. XX: “na verdade, ha o gozo”. Frente à esse impossível, Miller (2003) afirma que a ciência franqueou os limites deixados por Descartes,  a saber: não tocar na religião, na moral e na política.  Desde então, a partir dessa aliança, a ciência tornou-se outra coisa: um serviço de utilidade pública. O que abriu o mundo a uma nova desordem. O mundo hoje não é mais freudiano, ele é lacaniano.  E a tarefa incessante da falsa ciência, não é mais lançar um novo objeto, mas fabricar em serie, infinitas réplicas do único objeto que interessa: o objeto a no Zênite social.

Talvez, seja desde essa virada, visando eliminar o impossível e alcançar o ilimitado infinito, que vimos um desenvolvimento cientifico desenfreado visando novas tecnologias – tecnologias voltadas para fabricação de toys para satisfação do imperativo de gozo. A lista é sem fim, vai desde medicamentos, instituições de monitoramento e controle, até ipads nova geração do infinito Google.

O impossível parece ser possível. A resposta dos governantes e das suas comissões científicas, em escala mundial, tem alimentado a aceleração do sistema burocrático e tecnológico de gestão dos corpos – a biopolitica. Essa aceleração, segundo Célio Garcia (2011), impulsiona um mundo que não pára para pensar, não tem tempo a perder - o que produz, por efeito, respostas precárias do ponto de vista simbólico, mas exuberantes atuações e compulsões. A clínica dos novos sintomas a comprova. Contudo, em resposta, esses sintomas dessa época tem sido avaliados e contabilizados em manuais cada vez mais excessivos nos termos das suas classificações, gerando uma produção infinita de pílulas pela indústria farmacéutica  cuja turbina não cessa, sem parar. Recurso importante com o qual o projeto de uma sociedade de controle tem sido levado adiante. 

A medicalização generalizada é um exemplo, mas de modo geral, somos bombardeados cotidianamente por programas de governo que visam a eficácia no controle das populações, cuja promessa é distribuição da felicidade para todos. Sobre prometer o bem, a experiência analítica nos ensina que isso leva ao pior.

Miller (2012a) nos lembra, que não encontramos em Lacan nenhuma palavra que nos fizesse pensar que ele entretinha-se com a idéia de alguma cidade radiante, fosse ela encontrada no passado ou vislumbrada em algum lugar futuro. Sem nostalgia, mas também sem esperança. Aos olhos de Lacan, a política joga com a identificação, ela manipula os significantes mestres, e é por ai, ela procura capturar o sujeito. A parceria com os mestres está ai. Lacan concebeu o discurso do mestre como o avesso do discurso da psicanálise, pois a psicanálise vai contra as identificações do sujeito, ela os desfaz uma a uma, as faz cair como as cascas de uma cebola.

Com Lacan podemos dizer que a psicanálise é o avesso da política, da ciência, de tudo que conspira a favor do discurso do mestre e da produção em massa. O acontecimento Lacan, imprime no espaço público, uma desconfiança para com os ideais, os sistemas, as crenças e as promessas que a falsa ciência produz e que se espalha feito pólvora no campo da política. O psicanalista quando é analista, não é um crente, não segue a procissão. Ele leva o sujeito à sua vacuidade primordial, a um saber fazer com os furos que a linguagem faz no corpo, como modo de acessibilidade ao seu direito ao gozo. Pois sabemos que o modo de satisfação, as soluções sintomáticas se demonstram, um por um, sem igual e não encontram-se nas prateleiras, nas vitrines ou portal de teses. Sem predição ou prescrição.

Concordo com Miller (2012b) que a medida que a sociedade de controle é reforçada, impasses inéditos dão à psicanálise uma nova urgência, tanto ao nivel terapeutico quanto àquele do pensamento.

"Aquele que pratica a psicanálise deve, logicamente, querer as condições materiais de sua prática. A primeira, delas, é a existência de uma sociedade civil stricto sensu, distinta do Estado. A psicanálise não existe ali onde não é permitido praticar a ironia. Não existe ali onde não é permitido questionar os ideais sem sofrer por isso. Em consequência disso, a psicanálise é claramente incompatível com toda ordem totalitária. Ao contrário, a psicanálise faz causa comum com a liberdade de expressão e com o pluralismo." (MILLER,2012a)

Se no momento atual não basta mais cochichar no ouvidos dos príncipes, tomaremos a palavra para fazer vacilar os semblantes, deslocando o empuxo maciço da oferta higienista, mercadologica, normativa e homogeneizante que leva ao pior. Não temos a resposta sobre o que é o bem, qual é a solução, etc. A resposta política da psicanálise são os testemunhos públicos do passe e os fóruns de orientação lacaniana, contribuindo junto aos demais atores na construção de soluções mais arejadas e que deixem espaço para a invenção de um por um.

Então, a partir de agora, que cada um tome a palavra rumo às nossas Jornadas, faça bom uso de sua liberdade de expressão para que não falte o elemento surpresa. Desejo que essa Jornada seja surpreendente, como convém à experiência analítica, e para tanto, conto com cada um de vocês!



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Veja a conversa que aconteceu na 1ª atividade preparatória, em vídeo:




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Referências Bibliográficas:

MILLER, J-A.(2012a) Jacques Alain Miller em Página 12. Disponível em http://ebp-sp.blogspot.com.br/2012/05/anguille-en-politique-jacques-alain.html. Ultimo acesso em maio de 2012.
MILLER, J-A (2012b) “Lacan disait que lês femmes étaient lês meilleures psychanalystes. Et aussi les pires.” In. Lacan Quotidiene, nº 205, maio, 2012.

[1] MILLER, J.A. Entretien: Lacan et la Politique. Paris: P.U.F. Cités, nº 16, p.118.

[2] MILLER, J-A. Entretien: Lacan et la politique. In. Citès, Paris: PUF, nº 16, 2003, p. 106.

[3] Idem, p. 108

[4] Idem, p. 122

[5]LACAN, J. Declaration à France Culture. In: Le Coq-Héron, nº 46/47, 1974, p. 4-5

[6] MILLER, J-A. Entretien: Lacan et la politique. In. Citès, Paris: PUF, nº 16, 2003, p. 110

[7] Jesus Santiago participou como debatedor da Conversação “Adolescência e Drogas: Um caso que atravessa toda a cidade”,  realizada no dia 12 de maio de 2012, na sede do IPSMMG.

[8] MILNER, J-C. Le grand secret de l’ideologie de l’évaluation. In: Nouvel Âne, nº 2, decembre-2003, p. 9.

[9] Idem, p. 09

[10] ALEMAN, J. Una de las maneras de sustraerse a la técnica, es la política. Entrevista disponível em: http://www.revistaenie.clarin.com/rn/ideas/Jorge-Aleman-politicas-en-Lacan_0_689331306.html Consulta feita em 22 de maio de 2012.



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