segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Libertem RAFAH ! #freeRafahNached

Libertem RAFAH !




Pedimos às autoridades sírias, a liberdade imediata e incondicional de Rafah NACHED.  A célebre psicanalista, formada em Paris, está atualmente incomunicável, após ter sido presa no sábado, 10 de setembro à 01h30min da manhã no aeroporto de Damasco, no momento de embarcar para Paris, onde sua filha está para dar a luz. Ela é inocente de tudo de que é suspeita.Pedimos pressa aos governos e organizações internacionais: Rafah tem 66 anos, têm problemas do coração, sua vida está em perigo! Os psicanalistas do mundo inteiro se mobilizam em sua defesa.

Para assinar esta petição, enviar e-mail de apoio à Rafah em: rafah.navarin@gmail.com


Para participar da campanha pelo Twitter (tem que ter uma conta em twitter.com) :


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

GPS off road – Boletim da XVI Jornada da EBP-MG – n. 6

O inconsciente descreditado e o desabonado do inconsciente

Entre as precisas elaborações de Jésus Santiago em “A experiência analítica na época da permissividade delirante”[1], destacarei uma frase que me pareceu luminosa com relação ao desafio com que a psicanálise enfrenta nos nossos dias tomados pelas vacilações do Simbólico, instabilidades do Imaginário e casualidades do Real: “um sujeito demanda um tratamento sem dar crédito à existência do inconsciente, mesmo porque sua crença se aloja no gozo que provém de suas fantasias sexuais”.

À crença no gozo proveniente das fantasias sexuais se conjuga, então, um descrédito quanto à existência do inconsciente. Como se analisa, hoje, frente a essa desvalorização? Jésus responde que, embora tal descrédito desafie a experiência analítica, não lhe é propriamente um impedimento porque as fantasias que ganham corpo nas práticas sexuais contemporâneas “não são capazes de vedar o efeito real da não-relação entre os sexos”, ou seja, não fazem com que “as relações entre os sexos” funcionem “a mil maravilhas”. Portanto,  mesmo que o inconsciente seja descreditado, os enigmas que permeiam os modos de gozo fazem com que muitos sujeitos possam conferir algum crédito ao que podem escutar de um analista, especialmente se ele, a meu ver, com base na própria experiência analítica, for sensível ao que Lacan, no Seminário 23, chamará de “desabonamento do inconsciente”. Para elucidar esse meu ponto de vista, farei referência a duas breves situações clínicas.

Em um texto que se encontra entre as “primeiras publicações psicanalíticas” de Freud, “As neuropsicoses de defesa” (1894), é evocado o caso de uma mulher neurótica que se queixava de ser compelida a “atirar-se pela janela, ou de uma sacada” e por um temor, quando via “uma faca afiada”, de “apunhalar o próprio filho”. Admite, ainda, que não tinha muitas relações sexuais com o marido, mas que isso não era um problema porque ela não era de “natureza sensual”. Se considerarmos a afirmação freudiana de uma etiologia sexual para as neuroses, poderemos tomar essa ausência de “natureza sensual” declarada pela paciente como um tipo de descrédito dado ao inconsciente. Entretanto, e aqui me sirvo do que aprendi com o texto supracitado de Jésus, o fato de a época em que aconteceram os primórdios da experiência analítica não ter sido marcada por uma permissividade tornava mais frágil a adesão dos sujeitos à crença no gozo proveniente das fantasias sexuais: uma forte repressão, assegurada inclusive pela operação do recalque, permitia à paciente não acreditar no quanto era mobilizada pela sexualidade, mesmo no seu pretenso “desinteresse sexual”. Mas bastou Freud dizer-lhe que a visão de um homem a faziam ter “ideias eróticas”,  a considerar-se “uma pessoa depravada, capaz de qualquer coisa” e ela admite “a pobreza de seu casamento”, bem como “a sensação, frequentíssima, de que alguma coisa a forçava por sob a saia”. Ao admitir isso, ela dá ao inconsciente algum crédito.

A segunda vinheta clínica vem de um caso que pude supervisionar, relativo a uma jovem que, já nas primeiras entrevistas, apresentava-se como não tendo “nenhum problema sexual”, inclusive porque vivia “plenamente sua sexualidade”. Tal “plenitude” no âmbito da vivência a contrasta com o desinteresse sexual inicialmente declarado pela paciente de Freud, embora essas duas mulheres – separadas há mais de um século – aproximam-se no descrédito que, cada qual a seu modo, fazem ao inconsciente. À segunda, foi perguntado por que ela, então, queria se tratar. Responde que seu desembaraço sexual não lhe é suficiente para que “consiga ter um namorado”.

Um mesmo problema libidinal atravessa essas duas vinhetas clínicas: como uma mulher pode viver sua sexualidade com um homem? Separados e diferenciados pela chamada “liberação sexual”, os corpos dessas duas mulheres são tomados pelo real que, com Lacan, podemos localizar no que “retorna sempre ao mesmo lugar” e pode ter como, digamos assim, um de seus nomes, “a inexistência da relação sexual”. Se muitos analistas, hoje, são nostálgicos da decifração freudiana das metáforas sexuais corporificadas nos sintomas, a orientação lacaniana oferece-nos outro viés: quando uma análise pode dar lugar à experiência do desabonado do inconsciente,  um analista poderá então vir a discernir que, se um sujeito neurótico descredita o inconsciente, isso não significa que ele não sofra seus efeitos, inclusive porque o inconsciente, mesmo descreditado pela crença no gozo proveniente da fantasia, não deixa de ser um o que Lacan, no Seminário 23, chama de “parasita falador” imiscuído, ainda que de modos diferentes, tanto no “desinteresse sexual” da paciente freudiana quanto no “desembaraço sexual” daquela cujo caso pude supervisionar. Em ambos os casos, é a “surdez” própria à neurose que impede as pacientes de escutarem o que, em seus corpos, fala sem parar.

No Seminário 23, Lacan considera duas vias com relação a esse “parasita falador” chamado “inconsciente”: “liberar-se” dele “ou, ao contrário, deixar-se invadir pelas propriedades de ordem essencialmente fonêmica da fala, pela polifonia da fala”. Muitos neuróticos hoje, tomados pela crença no gozo de suas fantasias sexuais, descreditam o inconsciente. Ao contrário, como verificamos tantas vezes nos testemunhos dos AEs (Analistas da Escola), é apenas quando uma análise deu mostras de ter chegado a seu fim que certa liberação do parasita falador se processa, e justamente porque esse fim – diferente do que apresentam muitos neuróticos atualmente – implica um descrédito quanto ao gozo extraído da fantasia.

Disse “certa liberação” porque uma análise não torna um sujeito imune ao inconsciente e porque, quando ela chega a um fim, terá como produto um analista. Graças a essa concepção do analista como produto de uma análise, parece-me possível conjugar (e não apenas tomar como alternativas exclusivas) as duas vias referidas por Lacan quanto ao “parasita falador”. Afinal, ao sustentar uma relação de descrença com sua fantasia, um analista-produto-de-sua-própria-experiência-analítica manterá outro tipo de relação com o parasita falador que lhe toma o corpo e, caso seja um praticante da psicanálise, esse analista vai – por outro viés – “deixar-se invadir pelas propriedades de ordem essencialmente fonêmica da fala”. Trata-se de outro viés porque ele vai escutar reverberar essa “polifonia da fala” sobretudo nos corpos daqueles que o procuram como pacientes, mesmo se estes, como é tão frequente hoje, possam descreditar o inconsciente à medida que seus modos de gozo os ensurdecem quanto aos efeitos deletérios desse parasita.


Sérgio Laia – Coordenador da XVI Jornada da EBP-MG



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SOLICITAÇÃO 1
Membros da EBP residentes fora de Minas Gerais e que virão para a XVI Jornada da EBP-MG, favor enviarem uma mensagem para laia.bhe@terra.com.br, assinalando-lhe quando chegarão.

SOLICITAÇÃO 2
Membros da EBP e Aderentes da EBP-MG que publicaram livros recentemente e tenham interesse em lançá-los durante a XVI Jornada da EBP-MG, favor entrarem em contato com Mônica Campos, coordenadora da Comissão de Livraria:




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AVISO 1:
 Se você pode ajudar-nos a divulgar a XVI Jornada da EBP-MG, entre em contato com Cristina Nogueira, Coordenadora da Equipe de Divulgação:

A partir desta próxima 2a feira,  dia 19 de setembro, já teremos, na sede da EBP-MG, cartazes para auxiliarem na difusão da Jornada nesta “reta final”. Ainda há também folders disponíveis, para o mesmo fim.

AVISO 2:
GPS off road continuará circulando, até a data da XVI Jornada da EBP-MG (28 e 29 de outubro de 2011). Enviem suas contribuições, sempre curtas, para laia.bhe@terra.com.br




[1] Nesse texto, Jésus retoma, em parte, sua intervenção, realizada no semestre passado, no Seminário Preparatório para a XVI Jornada da EBP-MG: http://jornadaebpmg.blogspot.com/

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

"A experiência analítica na época da permissividade delirante" - Texto do Seminário preparatório à Jornada da EBP-MG do dia 07.04.2011




A experiência analítica na época da permissividade delirante*

Jésus Santiago

A clínica universal do delírio demonstra ser exigente e rigorosa quanto à sua aplicação diferencial no campo da psicose e da neurose. Ao postular seu aspecto universalizável, intenciona-se contrapô-la à uma concepção deficitária e negativa, pois à prática analítica importa fazer prevalecer, no delírio, a função de defesa diante do real do gozo. É seu invólucro de defesa, ou, mais precisamente, o seu papel de biombo, que dá substância à arquitetura própria da chamada invenção delirante de saber. Evidentemente, a definição de que todo delírio é saber apenas se justifica tendo-se em vista o fato de que o saber calcado na função significante se reparte de um modo distinto nos casos em que o recalque se constitui, ou não, como o modo preponderante de defesa do sujeito.
Como propõe Miller, o sujeito psicótico apresenta-se como “o delirante que não retrocede diante da elaboração de saber, diante do elemento de delírio que carrega sempre algo da invenção”[1]. Por outro lado, o sujeito dotado do recalque, apoiando-se na substituição significante própria do retorno do recalcado, traz consigo o S2 de que necessita e, consequentemente, pode responder por meio do valor substitutivo do sintoma. No entanto, ao se traduzir a foraclusão do Nome-do-Pai em termos de uma foraclusão generalizada, é a foraclusão desse S2 que vem substituir um S1 que se apresenta no cerne da operação foraclusiva. Diante disso, a resposta do sintoma, nesse sujeito, guarda a condição, em determinadas situações, de não se decifrar pelo recurso à metáfora e surge, assim, marcado pela interpolação do enigma.
A atualidade da clínica psicanalítica se interessa por configurações sintomáticas advindas do efeito do delírio generalizado que se institui em função do próprio impossível que envolve a relação sexual e repercute nas práticas contemporâneas com o sexo. Ao submeter-se à exigência de transparência, depara-se com o sexo em toda parte: no cinema, na televisão, nos jornais e revistas, na música, no shopping e, sobretudo, nas redes sociais de relacionamento da internet. Nos anos 70, Lacan prenuncia que “colocar o sexo na ordem do dia e exibi-lo nos diversos cantos das ruas, tratando-o como um detergente qualquer nos carrosséis televisivos, não faz dele uma promessa de benefício”[2]. Não diz, por outro lado, que se trata de um mal corrosivo de nossas sociedades. Tampouco esse tipo de difusão se constitui como um meio apropriado para tratar as angústias e os problemas particulares dos indivíduos. Em definitivo, é um fenômeno, nos diz Lacan: “da moda, a serviço dos disfarces liberalizadores que nos é fornecida, como um bem advindo do alto, por uma sociedade que se qualifica como permissiva”[3].
A meu ver, a lógica dessa proliferação do sexo apenas se revela ao encará-la como um delírio que, valendo-me dessa passagem de Lacan, nomeio como um delírio de permissividade. Tomo o delírio de permissividade como um mito moderno que, embora confira publicidade à pornografia e torne corriqueira as mais diversas práticas sexuais, não esgota, para o sujeito, o teor misterioso e enigmático do encontro amoroso. Vale dizer que a generalização delirante da permissividade não destitui o valor de enigma que impregna as práticas sexuais contemporâneas, pois estas últimas não são capazes de vedar o efeito real da não-relação entre os sexos. 
Em termos clínicos, correlaciono o delírio de permissividade com o lugar dominante que o mais-de-gozar assume em nossa civilização em detrimento do ideal do amor harmonioso e duradouro. Precisa-se, no entanto, que, se o objeto a ocupa o posto de comando, isto não quer dizer que as relações entre os sexo funcionam a mil maravilhas. Constata-se que, quanto mais se exalta e se busca a permissividade no laço social, mais o sexo é fonte de mal-estar e desencontro. Como delírio generalizado, a permissividade e a tolerância desenfreada não mascaram os percalços da não-relação, nem evitam o surgimento de proibições estranhas e enigmas insolúveis, como exemplifica o fenômeno da pedofilia. Ainda que a permissividade se dissemine com os objetos técnicos de suplência que favorecem a descrição infinita dos cenários eróticos possíveis, o mistério da sexualidade permanece intacto e sua incompreensibilidade subsiste mais do que nunca na forma variada de suas manifestações
sintomáticas[4].
Nesse contexto, há uma demanda de tratamento bastante corrente na prática analítica dos dias de hoje: um sujeito solicita um tratamento sem dar crédito à existência do inconsciente, mesmo porque sua crença se aloja no gozo que provém de suas fantasias sexuais. O tratamento confronta-o com a apreensão do objeto que se imiscui na fantasia para encenar sem precaução e sem prazos o imperativo de gozo que, muitas vezes, reduz o sujeito ao silêncio e à imobilidade dos usos da palavra reveladora de seu ser de desejo. Ainda assim, uma margem de manobra significativa para a operação analítica pode ser obtida, visto que as fantasias sexuais não constituem um entrave para que um sujeito tome a palavra acerca das dificuldades que experimenta no relacionamento com o Outro sexo.
Tratar o real da não-relação através do virtual e do imaginário apenas amplia e aprofunda o aspecto da crença no Outro, pois o gozo inerente ao tornar-se objeto do Outro se desnuda ainda mais. Lacan, em vários momentos de seu ensino, insiste no fato de o elemento perverso da fantasia presentificar uma suposição, movida pela crença de que, ao se almejar o desejo do Outro, captura-se o objeto. Essa suposição embasa-se em um jogo de engodo, constitutivo da própria satisfação da fantasia voyeur. Há sempre uma relação de logro com o objeto[5], porque, no momento em que o objeto se mostra, o sujeito se torna um equivalente deste objeto, e logo desaparece do cenário virtual.
Ao tentar aprisionar, por exemplo, o objeto olhado, o sujeito se confunde com o objeto, isto quer dizer que, para ele, o olhar se instala no Outro, ou seja, está sempre do lado de fora[6]. É por isso que apenas apreende-se a natureza dessa armadilha do olhar, na pulsão escópica, para-além da relação imaginária entre o ver e o ser visto. Aquilo que o sujeito quer ver, ele próprio desconhece; é algo que lhe concerne mais intimamente, ou seja, a petrificação presente na fascinação com a imagem acontece de uma tal maneira que, para o sujeito, o olhar se transforma no objeto inerte caracterizado pela existência de um quadro. A montagem do olhar no âmbito da satisfação pulsional é análoga àquela do quadro na medida que, em ambos, o olhar está do lado de fora. Para Lacan, nada é mais compatível com esse modo de satisfação do que a função inercial do olhar presente na força atrativa exercida pela arte do quadro. Em suma, o sujeito na fantasia escópica é um quadro[7].
É nesse ponto que o tratamento incide na insistência do recobrimento da fantasia sobre o real da não relação entre os sexos. Antes de tudo, importa ressaltar a função do objeto petrificado que o olhar assume em seu circuito fantasístico. Salienta-se, aqui, a força compulsiva da intromissão do olhar como meio para a obtenção da satisfação sexual.  É essa a fonte do sucesso que a pornografia assume para os homens. A importância desse curto-circuito da satisfação escópica sobre a pulsão constitui o que Lacan denomina como o fetichismo do gozo nos homens, por oposição à erotomania do amor nas mulheres[8]. Esse fetichismo do gozo escópico é o que dificulta, no tratamento, a passagem do nível da fantasia para aquele da pulsão. Permitir o objeto deslocar-se da fixação inercial em que se encontra, é fazer o quadro tornar-se moldura. Quando Lacan conecta a lógica à fantasia, ele se refere à necessária trajetória de esvaziamento do gozo do objeto que insiste em fazer valer como o fator essencial da economia libidinal de um sujeito. É preciso efetuar essa redução do gozo com o objeto inerte para que a fantasia faça valer-se como um sucedâneo do real. Ao se fazer dela um semblante do real, a fantasia encontra a pulsão.
Evidentemente que, para obter os efeitos desta fratura, a prática analítica não faz economia dos semblantes. A força do semblante utilizada no âmbito da experiência analítica pode, de algum modo, minar o fetichismo desenfreado do gozo e, assim, age na contracorrente da permissividade delirante. A operação analítica se defronta com o fato de que a fixação na satisfação na fantasia escópica, por exemplo, se reforça pela existência do discurso universal que sanciona a permissividade com o sexo. A aposta da experiência analítica é que um sujeito possa afrontar o insuportável da questão feminina pela via que inscreve a relação amorosa naquilo que resta da indignidade pulsional, da Coisa, do Das Ding de cada um. É o amor mais digno que se abre como solução para aquele que se confronta com a resposta permissiva que, como constatamos em muitos casos, especialmente sem o recurso à experiência analítica, tende insistentemente a eternizar-se.  


[1]Miller, Jacques-Alain. La invención del delirio [1995]. In Desde Lacan. Conferencias Porteñas. Buenos Aires: Paidós, 2009, t. 2, p. 297.
[2]LACAN, Jacques. Il ne peut pas y avoir de crise de la psychanalyse [1974]. Entrevista concedida por Jaques Lacan à Emilio Granzotto, traduzida do italiano por Paul Lemoine. In  le magazine littéraire. nº 428, février 2004. p.24-29
[3]LACAN, Jacques. Ibid. p.25.
[4]LAURENT, Éric. Le programme de jouissance n’est pas virtuel. In La cause freudienne, Les surprises du sexe. Paris: Navarin, nº 73, décembre 2009. p.42-49.  
[5] LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11, Os quarto conceitos fundamentais da psicanálise [1964]. Rio de Janeiro, Zahar, 1985. p. 102.
[6] LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11, Op. Cit. p. 104.
[7] Ibid. p. 102.
[8] LACAN, Jacques. Diretrizes para um Congresso sobre a sexualidade feminina [1958]. In Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998. p.742.




* Este texto é uma versão reduzida da apresentação que ele realizou no dia 7 de abril deste ano, no primeiro Seminário Preparatório para a XVI Jornada da EBP-MG

domingo, 11 de setembro de 2011

GPS off road – Boletim da XVI Jornada da EBP-MG – n. 5

Defesa do ego, defesa do sujeito e defesa contra o real: como se analisa hoje



Embora o tema do Seminário Preparatório do último dia 1º, sustentado por Lilany Pacheco, tenha contemplado tanto as inibições quanto os limites da elaboração, seu efeito sobre o público (numeroso e expressivo) que o acompanhou foi justo o contrário: concluída a apresentação do texto, choveram perguntas e comentários, dando-nos a oportunidade de participar de uma efetiva elaboração coletiva.



Fiquei também muito animado para publicar este número do GPS off road, após o que pudemos conversar naquela noite, mas, desta vez, atividades relativas ao cartaz e à seleção de trabalhos para a XVI Jornada da EBP-MG,  somados a outros afazeres de minha “vida dupla” como psicanalista e professor universitário, impediram que minha animação se transmutasse em rapidez para o lançamento desta edição.  



Haveria muito a se dizer e retomar do que discutimos no primeiro dia deste mês. O texto de Lilany já se encontra, integral, no blog da Jornada, cujo endereço repito abaixo, entre os avisos. Vou me ater, aqui, à tríade que inseri no título deste número. Lilany lembrou-nos que, segundo Freud, a defesa aparece como proteção do eu, quando o recalque se torna insuficiente. Mas ela também evocou o escrito “Observação sobre o relatório de Daniel Lagache: ‘Psicanálise e Estrutura da Personalidade’”, assim como o “Resposta ao comentário de Jean Hypollite sobre a Verneinung de Freud”, nos quais Lacan aborda a “defesa do sujeito”, distanciando-se e criticando, a meu ver, a perspectiva que Anna Freud e a Psicologia do Ego reforçaram na prática psicanalítica com os chamados “mecanismos de defesa do ego”. Contra o que é a defesa? Uma intervenção de Jésus Santiago, no debate, permitiu-nos uma resposta a tal questão. Aproveitando a articulação freudiana, também trabalhada por Lilany, entre defesa e inibição, bem como o contraponto (não menos freudiano) entre recalque e sintoma, Jésus destacou o recalque como “retórico” e a defesa – na medida em que produz a inibição de uma função (que Freud pôde qualificar de intelectual, alimentar, sexual, etc) – implicaria um aparelho. Essa menção ao aparelho fez Jésus evocar-nos o quanto Lacan, em seu último ensino, segundo tem nos mostrado Jacques-Alain Miller, passa do sujeito ao falasser, da fala, parole (sempre retórica e passível até de ser funcional) à  apparole, ou seja, à “aparola”, à fala imposta como uma espécie de máquina que parasita o ser que, devido à precariedade característica do humanos desde seu nascimento, se torna seu refém. Na perspectiva aberta então pelo último ensino de Lacan, a defesa, conforme nos lembrou Jésus, é defesa contra o real.



Defesa do ego, defesa do sujeito, defesa contra o real – temos, então, uma tríade. Ao escrever este Boletim, me dou conta de que o título da próxima Jornada da EBP-MG comporta também uma tríade. Assim, me pergunto se não poderíamos fazer a seguinte hipótese: as defesas do sujeito estariam em jogo nas próprias “vacilações do simbólico”, as defesas do ego ganham corpo nas “instabilidades do imaginário” e, porque o real – por se imprevisível, sem lei – apresenta-se nas “causalidades” que perpassam nossas vidas, é efetivamente contra o real que o falasser (junção, com o corpo, do que Lacan chamava de sujeito) vai se defender.



Frente ao horror que o real-sem-lei provoca, como se analisa hoje? A perspectiva annafreudiana era de reforçar o ego, ou seja, fortalecer as defesas. É o que encontramos, ainda hoje em dia, sob vestimentas suspostamente mais “tecnológicas”, nas terapias cognitivo-comportamentais, no uso exclusivo da medicação sem que se leve em conta a aparola e nas práticas de autoajuda. O mundo contemporâneo, tomado pelo que um historiador cultural como Cristopher Lasch, já no final da última década de 70, chamava de “cultura do narcisismo”, é pródigo em exemplos de falácias das fortalezas do eu que, ainda assim, devido às “instabilidades do imaginário”, continuam a ser incessantemente construídas. Tampouco a saída seria contentar-nos com o abrigo que nos daria o Outro, pois a experiência analítica permite-nos verificar que esse campo simbólico não deixa de vacilar e só é armado porque, efetivamente, por um lado, padecemos, como sujeitos, do que Lacan chamou de “falta-a-ser” e, por outro, o Outro, exceto como tal “armação”, não é encontrado no real de nossa precária e corporificada existência.



Nesse contexto que muitos consideram sombrio, e frente ao horror do real-sem-lei, como se analisa hoje? A resposta da orientação lacaniana pode não ser considerada acolhedora ou apaziguante, mas, como vimos no último Seminário Preparatório, é provocante, atiça, vivifica. Ela toma o veneno como o próprio remédio, mas, ao modo do que temos na fabricação de soros e vacinas, não na mesma dosagem. Afinal, frente à “defesa contra o real” tão bem evocada por Jésus, nossa resposta é o que Lilany pinçou de Lacan e de Jacques-Alain Miller: o “analista trauma”, que “perturba a defesa” e dá lugar, não sem contar com algum “acontecimento imprevisto”, a outros modos de viver a pulsão.





Foto de Damon Winter, para o New York Times, com os chamados “Sky Cowboys”,
na construção do novo World Trade Center



O século XXI, inaugurado com o ataque terrorista do qual hoje recordamos a primeira década, é também, muito mais do que os outros que o antecederam, tomado pelas compulsões. Poucas vezes, então, a humanidade viu seus corpos serem perpassados tão claramente por essa pulsão por excelência que é a pulsão de morte. Tal clareza, entretanto, nem sempre é uma evidência para aqueles que se colocam alheios à experiência analítica: a debilidade, que grassa em nossos tempos, faz com que, como se diz, “não se veja um palmo diante do nariz”. Mas, nesse mundo tomado pela pulsão, se uma análise pode dar lugar a outros modos de vivê-la, verificamos também que, contra tudo e contra todos, como já acontecia desde que Freud a inventou, a psicanálise tem ainda futuro.





Sérgio Laia – Coordenador da XVI Jornada da EBP-MG





Obs.: para a fonte e outras fotos de Damon Winter sobre a mesma temática:




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MOMENTO LACAN



Na última sexta-feira, contamos 30 anos da morte de Jacques-Lacan. Durante a XVI Jornada da EBP-MG, haverá um Momento Lacan, para celebrarmos a vida de Lacan. Jésus Santiago, em uma das Plenárias da Jornada, foi convidado para, digamos assim, acender a tocha, destacando-nos a chama que a presença viva e permanente de Lacan faz incidir sobre a invenção freudiana e os modos como a colocamos em prática em nossas vidas. Essa expressão – Vida de Lacan – é título de um livro de Jacques-Alain Miller, que os membros da EBP receberam como presente da Diretoria dessa Escola na última sexta-feira e que estará também disponível, para aquisição, na Livraria dessa Jornada.





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AVISO 1:

Até o próximo dia 16, os valores para inscrição na XVI Jornada da EBP-MG ainda são os mais reduzidos. Antecipem, portanto, suas inscrições e, desde já, garantam suas vagas.





AVISO 2:

No blog da Jornada, temos publicado, além deste Boletim, textos provenientes, em parte ou integralmente, dos Seminários Preparatórios para a XVI Jornada da EBP-MG. Assim, já podem ser encontrados lá textos de Elisa Alvarenga, Cristina Drummond e Lilany Pacheco. Na segunda-feira, dia 12 deste mês, será publicada uma versão parcial da apresentação que Jésus Santiago realizou em um dos Seminários Preparatórios do semestre passado. Trata-se “A experiência analítica na época da permissividade delirante”. Lendo esse texto, poder-se-á ver que, se no último Seminário Preparatório, Lilany falou sobre a inibição, naquele que foi o primeiro e proferido por Jésus, a temática era a da desinibição. Em ambas situações – de inibição ou de desinibição –  o desafio é como analisar frente à “precariedade das elaborações”.



O endereço do blog é:






AVISO 3:

Membros da EBP e Aderentes da EBP-MG que publicaram livros recentemente e tenham interesse em lançá-los durante a XVI Jornada da EBP-MG, favor entrar em contato com Mônica Campos, coordenadora da Comissão de Livraria:






AVISO 4:

 Se você pode ajudar-nos a divulgar a XVI Jornada da EBP-MG, entre em contato com Cristina Nogueira, Coordenadora da Equipe de Divulgação:




Desta vez, fizemos um número maior de folders, para que possamos distribuí-los mais amplamente, visando sobretudo àqueles potencialmente interessados em se inscrever nesse evento. Para divulgá-la, contaremos também com cartazes.





AVISO 5:

GPS off road continuará circulando, até a data da XVI Jornada da EBP-MG (28 e 29 de outubro de 2011). Enviem suas contribuições, sempre curtas, para laia.bhe@terra.com.br

domingo, 4 de setembro de 2011

As inibições e os limites da elaboração na clínica de hoje

Lilany Pacheco


Os limites da elaboração em Freud



Ao introduzir a pulsão de morte e seu mais além, Freud afirmará que vinte e cinco anos de intenso trabalho tiveram por resultado que os objetivos imediatos da psicanálise fossem, naquele momento, inteiramente diferentes do que eram no começo. Essa afirmação de Freud já denotava aquilo que no seu tempo apresentava-se como precariedade do simbólico, evidenciando, para o tratamento analítico, como nos convida a considerar o título do próximo Congresso da Associação Mundial de Psicanálise, que a ordem simbólica já “não é mais o que era”.

Freud estava, naquele tempo, às voltas com a compulsão à repetição e a resistência como empecilhos ao método analítico caracterizado até então como uma arte interpretativa. Além de jogar por terra a idéia de Freud de que o objetivo do trabalho analítico era de que o inconsciente deveria tornar-se consciente, a noção de pulsão de morte e seu mais além vão implicar outras consequências e desdobramentos na formalização do pensamento freudiano.

Dentre outros fenômenos clínicos associados à noção de pulsão de morte, Freud apresentará a “reação terapêutica negativa”. No texto dedicado ao caso clínico do “Homem dos lobos”, Freud anotará: “Durante o tratamento analítico, o paciente tinha como hábito, produzir reações negativas transitórias e a cada vez que alguma coisa tinha sido conclusivamente posta às claras ele tentava contradizer o efeito, por um certo espaço de tempo, agravando o sintoma que havia sido elucidado”.

Será, entretanto, em “Eu e o Isso” e no “Problema econômico do masoquismo” que Freud formulará o “conceito” de reação terapêutica negativa: “cada solução parcial, que deveria resultar, e em outras pessoas realmente resulta, numa melhora ou suspensão temporária dos sintomas, produz nestes pacientes uma exacerbação de sua doença e, momentaneamente, eles pioram no tratamento ao invés de melhorarem... a recuperação é vista como ameaçadora, como se ela fosse um perigo... esta reação se revela como o mais poderoso obstáculo à recuperação. Mais poderosos do que os já conhecidos: a inacessibilidade narcísica, atitude negativa em direção ao analista, e o apego ao ganho secundário da doença.“

Além destes aspectos, Freud irá destacar que, de um modo geral, essa reação terapêutica negativa se apresenta nos bons analisantes, naqueles que fazem tudo para que o tratamento analítico progrida e, mesmo assim, pioram, ou em nada modificam sua relação ao sintoma alimentando o sentimento de que não há jeito para eles, que nada lhes adianta, que continuam na mesma e estão cada vez mais angustiados...


A defesa e o recalque: conjunção e disjunção

Ao lado destas manifestações clínicas e depois de elaborar sua segunda tópica na qual separa eu, isso e supereu, Freud fará, 30 anos depois dos seus “Escritos sobre a Histeria”, a recuperação da noção de defesa tão cara a ele. É, portanto, na trilha dos efeitos da formulação da pulsão de morte, da dissecção da segunda tópica e da reformulação da teoria da angústia que ele irá recuperar a noção de defesa. Em “Inibição, sintoma e angústia” – no adendo C intitulado “Recalque e Defesa” – Freud é explícito em dizer que durante algum tempo usou em lugar da expressão “processos defensivos” a palavra “recalque”, reconhecendo que não estaria ainda certo das relações entre as duas. E esclarece: “há uma vantagem em retornarmos à velha noção de defesa contanto que empreguemos explicitamente como uma designação geral para todas as técnicas das quais o eu faz usos em conflitos que possam conduzir a uma neurose, ao passo que conservamos a palavra recalque para o método especial de defesa” cujo uso deve ser restrito.

Para exemplificar, Freud relembra que as descobertas da psicanálise tiveram início com o recalque e a formação de sintomas na histeria cujo efeito principal é o “esquecimento”. Com o estudo das neuroses obsessivas, entretanto, Freud percebe que as ocorrências que provocam o adoecimento não são esquecidas, permanecem conscientes, mas são “isoladas” por um procedimento quase mágico de “desfazer o que foi feito” e que se refere a uma finalidade defensiva que já não apresenta mais qualquer semelhança com o recalque. Assim, conclui Freud, temos fundamentos bastante sólidos para reintrodução do antigo conceito de defesa que pode abranger todos os processos de proteção do eu, quando o recalque se mostra insuficiente para dar conta das exigências pulsionais e da angústia de castração.

A importância desta nomenclatura é realçada, acrescenta Freud, se considerarmos a possibilidade de que investigações ulteriores poderão revelar estreita ligação entre formas especiais de defesa e doenças específicas. Além, de esclarecer, por exemplo, que antes de sua acentuada divisão entre um eu, um isso e um supereu, o aparelho psíquico possa fazer uso de diferentes métodos de defesas dos quais se utiliza após ter alcançado sua organização. No “Esboço de Psicanálise”, Freud acrescentará que “a defesa constitui o conceito principal do mecanismo das neuroses e de certas psicoses”, aspecto este que relança a defesa e a aproxima da constituição mesma do sujeito e do recalque originário, este furo primeiro no isso e em torno do qual a defesa e o recalque fazem uma dupla face.

A dificuldade de Freud de distinguir o eu, do sujeito, dará lugar à confusão que fez da pratica analítica uma prática de eu a eu. A partir do escrito de Lacan intitulado “Observação sobre o relatório de Daniel Lagache: ‘psicanálise e estrutura da personalidade’”, a defesa se tornará um conceito lacaniano e não se falará mais em defesa do eu, mas de defesa do sujeito, dado o caráter heterogêneo do sujeito ao isso. Em seu escrito a propósito do comentário de Jean Hyppolite sobre a Verneinung, Lacan aborda a confusão da resistência com a defesa e, ao retomar esta última, destaca seu ponto de aplicação sobre o sujeito em relação à angústia, ao desejo e ao gozo. Ele dirá que o sujeito se defende e é por isso que ele insiste que a resistência é do analista, além de declarar que o conceito de defesa permite julgar e distinguir os teóricos da psicanálise. Lacan mencionará em O seminário, livro 10: a angústia, que as defesas, diferentemente do recalque, não são contra a angústia, mas contra o sinal da angústia. Ou, como escreveu Alain Merlet: “a defesa da defesa” (cf. La Lettre mensuelle, n. 39, maio de 1985).


Inibição, defesa e a dimensão do ato

Para Ricardo Seldes, nosso colega da EOL e que nos visitou semana passada por ocasião de nossas Jornadas de Cartéis: “os jovens que estão por aí, com suas atuações, compulsões e desinibições, nada mais são que uns ‘inibidos do ato’”. Pareceu-me interessante estarmos atentos a isto: no contexto do “fazer, em lugar de dizer”, encontramos sujeitos “inibidos do ato”. Se há tantas atuações, como podemos falar de sujeitos inibidos do ato? Entendo que se trata daqueles que estão inibidos do ato como sujeitos, porque estão apartados de si mesmos pelo próprio “déficit do simbólico” e, diante disso, restam-lhes as identificações imaginárias que lhes constituem um “eu” do tipo “nomeado para” se defenderem de ser agentes de um ato implicado no desejo.

Ou, ainda, como leu Sérgio Laia no número 4 do Boletim GPS off road consagrado à próxima Jornada da EBP-MG, a distinção entre defesa e recalque é um achado uma vez que “em um mundo como o nosso, tomado pelo imperativo da satisfação, a operação do recalque experimenta, a todo instante, sua insuficiência e, nesse viés, a defesa se impõe como um recurso que aciona tanto a inibição e seu silêncio, quanto sua contra-face – a ruidosa compulsão. Nesse contexto tomado pelo ato silenciado pelos inibidos ou impulsado pelos ditos ‘desinibidos’, o ato analítico poderá oferecer-nos outra saída”.

Como já dissemos, um traço do homem contemporâneo é ser bombardeado pelas mais diversas ofertas de gozo próprias do discurso do Outro que aparece atualmente de maneira flutuante, pulverizada e fragmentada, quando já não há mais Ideal, e sim o esfacelamento das insígnias fálicas que fariam face ao imperativo do gozo.

Recortei da entrevista que Almanaque on line, n. 8 realizou com Cristina Drummond, o fragmento de uma questão na qual se descreve o que aqui temos chamado de “inibidos do ato”:



 “O mundo contemporâneo se constitui pela fragilidade das ficções, pela falta de ideais e mesmo por uma dificuldade de localização dos sintomas. Muitos dos que chegam aos consultórios procurando tratamento não sabem localizar de que sofrem, assim como também encontramos cada vez mais os chamados “sem lugar”: jovens que passam a noite correndo pela cidade, de bar em bar, sem ponto de parada; andarilhos ou errantes. Podemos dizer que o mundo se apresenta de uma forma fluida e incerta, gerada pelo que temos chamado das incertezas do simbólico”.





Além do que foi descrito neste número do Almanaque, tenho encontrado, de maneira muito enfática, aqueles que se formaram, frequentaram a Universidade, já passam dos 30 anos e não sabem o que farão quando crescerem. Queixam-se de uma paralização, uma inibição e, a despeito de terem uma ferramenta em suas mãos, um curso superior, apresentam-se como desinseridos, “sem lugar”. Agrega-se a isto outros aspectos da vida – a sexualidade, por exemplo, diante da qual muitos sujeitos que buscam hoje uma psicanálise descrevem sua situação como a de alguém que está diante de uma porta aberta, mas não consegue adentrar.

Laurent no Papers 1 destinado à preparação do próximo Congresso da Associação Mundial de Psicanálise, refere-se ao fato de que”



“o sujeito ao qual se dirige a experiência tem expectativas racionais. Busca maximizar seu saber sobre si mesmo e o mundo. Tem desejo de aprender, o need to know. É o que substitui, nesta perspectiva, o sujeito suposto saber. Este saber se reconhece meio de gozo, pois, por este saber, o sujeito busca também maximizar seu ganho libidinal, melhorar sua satisfação sexual ou a auto-estima. Digamos que busca maximizar ganhos reais, simbólicos e imaginários. É um homo economicus libidinalis em busca de uma felicidade utilitarista e funcional. Trata-de uma vontade de maior eficácia, promovendo a ideia de que a única justificativa de uma escolha se desprende da vontade de uma maior eficácia”.



Isso é comum, por exemplo, no discurso das jovens executivas que decidem engravidar e buscam a psicanálise como mais um recurso garantidor da eficácia dos tratamentos oferecidos pelos centros de reprodução humana.



Os “bons analisantes“, descritos por Freud, não se assemelham ao que Laurent descreveu como a busca do trabalho analítico em busca de uma felicidade utilitarista e funcional e sem nada querer saber da sua posição como sujeito?

Em “Inibições, sintomas e angústia”, Freud define as inibições pelo seu caráter funcional. Ele afirmará que “na descrição das manifestações patológicas, o uso linguístico permite-nos distinguir os sintomas das inibições sem, contudo, atribuir grande importância à distinção”. Na realidade, dificilmente poderíamos pensar que valeria a pena diferenciar exatamente entre os dois, não fosse encontrarmos moléstias nas quais observamos a presença de inibições, mas não de sintomas, e ficamos curiosos  para saber a razão disto. Acrescenta Freud: “A inibição tem uma relação especial com a função, e não necessariamente uma implicação patológica. Um sintoma, por outro lado, realmente denota a presença de algo patológico.”  Uma jovem que busca tratamento para engravidar, por exemplo, não se apresenta para uma análise, doente do significante.



Sem me deter nos usos da palavra inibição feitos anteriormente entre os analistas lacanianos, me pareceu familiar, agora, encontrar a proposição de Freud de que as inibições se definem por sua função. O último ensino de Lacan, com a pluralização dos nomes do pai e o uso dos nós, orienta-nos a interrogar sobre a função que a droga tem para um determinado sujeito, quando as noções generalizantes de toxicomania, ou mesmo nossas noções clássicas de estruturas clinicas não são suficientes para esclarecer as relações de um sujeito com as drogas. Ou seja, não se trata de um sintoma e suas disfunções (daí a denominação “novos sintomas”), mas de alguma coisa que funciona e funciona para o gozo.

Como pode o analista fazer passar o discurso analítico diante da demanda de funcionalidade e suas incidências na elaboração? Ou, ainda, diante dos inibidos do ato que fazem barulho para se manterem silenciados?

Nosso horizonte”, propõe-nos Laurent, “é o de um analista vazio que está advertido de seu gozo, mas que sabe, mais além do furo na ordem simbólica, instalar-se na posição daquele que pode perturbar a defesa”, dando lugar, com muita delicadeza, ao psicanalista como “psicanalista-trauma”. Para além da neutralidade analítica propalada pelos psicanalistas que restringiram as intervenções clínicas ao eu e suas defesas,  “o psicanalista-trauma, ao contrário, é uma posição do psicanalista onde ele aceita correr riscos, calculados, certamente, e não se submeter inteiramente às interdições protetoras ou mortificantes, sem que com isso caia no ativismo terapêutico (...). O psicanalista que se dá como meta ;perturbar a defesa’, fazer ‘trauma’, testemunha do rechaço de considerar seu espaço de discurso como o de uma ‘norma sem força’”.


A defesa perturbada



1)    Perturbar a defesa quando o sujeito se apresenta pelo fazer com o corpo em lugar de dizer, ou das inibições em relação ao dizer.



Do testemunho de passe de Silvia Salman pude extrair uma intervenção do analista que ilustraria a aposta do analista no contexto contemporâneo desses chamados “novos sintomas”. Trata-se de um sujeito que, desde os primeiros anos de vida, apresentou-se pelo rechaço ao alimento, algo que ela, muitos anos depois pode nomear como anorexia embora o diagnóstico médico na época tenha sido de raquitismo e mongolismo. Rechaço de tal ordem ao alimento que colocava em risco a vida da criança que, por orientação médica, foi morar com o pai do qual recebe, nesse momento, a designação “desenho animado”. O corpo animado se tornou, então, uma defesa desse sujeito frente ao Outro sexo e à pergunta “o que é uma mulher?”. Em um tempo anterior ao esclarecimento que vai aproximá-la do fim da análise, o analista a interroga se ela encontrava no olhar do parceiro o olhar do pai, atualizando, na transferência, uma modalidade de gozo que condicionava todos os laços amorosos: “sentir-se agarrada pelo olhar do Outro” e que a fazia “querer estar sempre em um outro lugar”. A AE dá à intervenção do analista o nome de intervenção contra-transferencial. Do nosso ponto de vista, diria que o analista faz uma intervenção que perturba a defesa. Nessa intervenção, o analista lhe diz: “Você me provoca isto”, e a “agarra em ato”, fazendo-a sair fugindo, ato contínuo, para a percepção de que ela fazia-se agarrar pelo Outro – fazia-se agarrar para fugir, percebendo-se, portanto, fugidia e arisca na forma de estabelecer laços, especialmente com os homens. Atualiza-se, desse modo, na transferência, essa forma de laço fundamental com o parceiro-sintoma, e também se esclarece para ela que a pulsão é sempre ativa e que a defesa serve ao sujeito para que ele não se veja aí, no circuito pulsional.

  

2) Perturbar a defesa lá onde estava o sujeito religioso



Trata-se de um sujeito para quem o “sujeito suposto saber”, como um nome da transferência estava lá, desde sempre, para ser ocupado pelos analistas que se sucedem até o encontro com este terceiro analista que, finalmente, lhe perturba a defesa. Esse analisante, Bernard Seynhaeve, apresenta-se como alguém que crê em seu sintoma, crê em suas fantasias, crê que o analista estaria ali, onde sempre esteve, pronto para lhe dar uma bofetada. Esta é a oferta primeira que esse sujeito faz ao analista – “não me bata muito forte” ou seja “me bata” – enunciado que é sempre recebido pelo analista com um, “hum”... Disciplinado, esse analisante respeitou a regra analítica e se põe a narrar suas fantasias repetidamente, diversas e diversas vezes, sempre recebidas com o “hum”, do analista.

Em um dado momento, o analista toca em uma lembrança e o analisante obedientemente desfia o fio de seus fantasias até que um dia, após o corte da sessão, o analista lhe diz – “você gosta demais de suas fantasias”. O analisante não entende a interpretação e, além disto, se sente flagrado na falha de gozar de contar sua fantasia, goza do sentido, da falação. O analista havia tocado a raiz de um gozo ignorado por ele.

Essa interpretação o mergulha em uma sólida angústia, uma angústia louca que durará dois anos como uma travessia no deserto na qual faz a experiência da vanidade do sentido e que lhe faz responder com um “nada mais vale a pena ser dito quando a gente se dá conta disso”. Silêncio...

O analisante ia mecanicamente às sessões, deslocava seu corpo, ia ao encontro de um outro corpo, seu corpo tomava o trem que o levava ao analista, tocava a campanhia, sala de espera, gemido da maçaneta, ruídos da boca, sopro da respiração, suspiros do analista, ruídos que de um modo geral mal são percebidos. Dois corpos, presença depurada do objeto a, angústia tão forte que fez o analisante se surpreender fugindo da sala de espera. Solidão radical.

O analista sabia da angústia. Um dia marcou a sessão em um feriado. Estaria enganado? Não, o analista estava lá e o esperava. O analisante entende com este ato que, se estava mal, podia contar com o analista. Acordava deprimido, dizia para si que não lhe restavam mais que vinte anos de vida. Dois anos de travessia no deserto, até perceber que se tratava da travessia de sua fantasia. Um dia, escutando um seminário do analista, escreve um pequeno texto com a estrutura do que não cessa de não se escrever e o mostra ao analista. O texto serviu para escrever uma borda no seu corpo fazendo com que a interpretação do analista ganhasse lugar na cadeia de significantes que ele havia entregado ao analista ao longo dessa análise. A angústia caiu de um só golpe.



Podemos reconhecer nestes dois fragmentos de relatos de passe, os seguintes pontos que orientam nossa discussão de hoje:



a)    O modo como o corpo do analista é posto em cena enquanto UM corpo, oferta para fazer face ao limite da elaboração, quando esses dois analisantes supunham que o fim da transferência e a separação do analista se aproximavam.

b)    Se estamos com Lacan nessa discussão, reconhecemos aí, nos dois casos, o analista perturbando a defesa no momento em que a defesa protegia o advento do sujeito, enquanto sujeito inserido no circuito pulsional, lá onde isso era...

c)    Os efeitos decorrentes da perturbação da defesa encontram seus ecos na diferença dos discursos que esses dois analisantes habitam. Para Silvia Salman, o analista, com o corpo, toca a descrença no Outro; para Bernard Seynhaeve, o que é tocado é a crença no sentido, dando lugar à positividade do gozo.

Diferentemente do que é mostrado na clínica do passe, “os inibidos do ato”, na entrada, apresentam ao analista sua “reação terapêutica negativa”, deixando o analista sem a possibilidade de lançar mão do crédito adquirido com os efeitos terapêuticos já alcançados ao longo do tratamento analítico. Nesses casos, a defesa máxima encontra-se do lado do sujeito e o discurso analítico é colocado à prova, ao máximo.