Defesa do ego, defesa do sujeito e defesa contra o real: como se analisa hoje
Embora o tema do Seminário Preparatório do último dia 1º, sustentado por Lilany Pacheco, tenha contemplado tanto as inibições quanto os limites da elaboração, seu efeito sobre o público (numeroso e expressivo) que o acompanhou foi justo o contrário: concluída a apresentação do texto, choveram perguntas e comentários, dando-nos a oportunidade de participar de uma efetiva elaboração coletiva.
Fiquei também muito animado para publicar este número do GPS off road, após o que pudemos conversar naquela noite, mas, desta vez, atividades relativas ao cartaz e à seleção de trabalhos para a XVI Jornada da EBP-MG, somados a outros afazeres de minha “vida dupla” como psicanalista e professor universitário, impediram que minha animação se transmutasse em rapidez para o lançamento desta edição.
Haveria muito a se dizer e retomar do que discutimos no primeiro dia deste mês. O texto de Lilany já se encontra, integral, no blog da Jornada, cujo endereço repito abaixo, entre os avisos. Vou me ater, aqui, à tríade que inseri no título deste número. Lilany lembrou-nos que, segundo Freud, a defesa aparece como proteção do eu, quando o recalque se torna insuficiente. Mas ela também evocou o escrito “Observação sobre o relatório de Daniel Lagache: ‘Psicanálise e Estrutura da Personalidade’”, assim como o “Resposta ao comentário de Jean Hypollite sobre a Verneinung de Freud”, nos quais Lacan aborda a “defesa do sujeito”, distanciando-se e criticando, a meu ver, a perspectiva que Anna Freud e a Psicologia do Ego reforçaram na prática psicanalítica com os chamados “mecanismos de defesa do ego”. Contra o que é a defesa? Uma intervenção de Jésus Santiago, no debate, permitiu-nos uma resposta a tal questão. Aproveitando a articulação freudiana, também trabalhada por Lilany, entre defesa e inibição, bem como o contraponto (não menos freudiano) entre recalque e sintoma, Jésus destacou o recalque como “retórico” e a defesa – na medida em que produz a inibição de uma função (que Freud pôde qualificar de intelectual, alimentar, sexual, etc) – implicaria um aparelho. Essa menção ao aparelho fez Jésus evocar-nos o quanto Lacan, em seu último ensino, segundo tem nos mostrado Jacques-Alain Miller, passa do sujeito ao falasser, da fala, parole (sempre retórica e passível até de ser funcional) à apparole, ou seja, à “aparola”, à fala imposta como uma espécie de máquina que parasita o ser que, devido à precariedade característica do humanos desde seu nascimento, se torna seu refém. Na perspectiva aberta então pelo último ensino de Lacan, a defesa, conforme nos lembrou Jésus, é defesa contra o real.
Defesa do ego, defesa do sujeito, defesa contra o real – temos, então, uma tríade. Ao escrever este Boletim, me dou conta de que o título da próxima Jornada da EBP-MG comporta também uma tríade. Assim, me pergunto se não poderíamos fazer a seguinte hipótese: as defesas do sujeito estariam em jogo nas próprias “vacilações do simbólico”, as defesas do ego ganham corpo nas “instabilidades do imaginário” e, porque o real – por se imprevisível, sem lei – apresenta-se nas “causalidades” que perpassam nossas vidas, é efetivamente contra o real que o falasser (junção, com o corpo, do que Lacan chamava de sujeito) vai se defender.
Frente ao horror que o real-sem-lei provoca, como se analisa hoje? A perspectiva annafreudiana era de reforçar o ego, ou seja, fortalecer as defesas. É o que encontramos, ainda hoje em dia, sob vestimentas suspostamente mais “tecnológicas”, nas terapias cognitivo-comportamentais, no uso exclusivo da medicação sem que se leve em conta a aparola e nas práticas de autoajuda. O mundo contemporâneo, tomado pelo que um historiador cultural como Cristopher Lasch, já no final da última década de 70, chamava de “cultura do narcisismo”, é pródigo em exemplos de falácias das fortalezas do eu que, ainda assim, devido às “instabilidades do imaginário”, continuam a ser incessantemente construídas. Tampouco a saída seria contentar-nos com o abrigo que nos daria o Outro, pois a experiência analítica permite-nos verificar que esse campo simbólico não deixa de vacilar e só é armado porque, efetivamente, por um lado, padecemos, como sujeitos, do que Lacan chamou de “falta-a-ser” e, por outro, o Outro, exceto como tal “armação”, não é encontrado no real de nossa precária e corporificada existência.
Nesse contexto que muitos consideram sombrio, e frente ao horror do real-sem-lei, como se analisa hoje? A resposta da orientação lacaniana pode não ser considerada acolhedora ou apaziguante, mas, como vimos no último Seminário Preparatório, é provocante, atiça, vivifica. Ela toma o veneno como o próprio remédio, mas, ao modo do que temos na fabricação de soros e vacinas, não na mesma dosagem. Afinal, frente à “defesa contra o real” tão bem evocada por Jésus, nossa resposta é o que Lilany pinçou de Lacan e de Jacques-Alain Miller: o “analista trauma”, que “perturba a defesa” e dá lugar, não sem contar com algum “acontecimento imprevisto”, a outros modos de viver a pulsão.
Foto de Damon Winter, para o New York Times, com os chamados “Sky Cowboys”,
na construção do novo World Trade Center
O século XXI, inaugurado com o ataque terrorista do qual hoje recordamos a primeira década, é também, muito mais do que os outros que o antecederam, tomado pelas compulsões. Poucas vezes, então, a humanidade viu seus corpos serem perpassados tão claramente por essa pulsão por excelência que é a pulsão de morte. Tal clareza, entretanto, nem sempre é uma evidência para aqueles que se colocam alheios à experiência analítica: a debilidade, que grassa em nossos tempos, faz com que, como se diz, “não se veja um palmo diante do nariz”. Mas, nesse mundo tomado pela pulsão, se uma análise pode dar lugar a outros modos de vivê-la, verificamos também que, contra tudo e contra todos, como já acontecia desde que Freud a inventou, a psicanálise tem ainda futuro.
Sérgio Laia – Coordenador da XVI Jornada da EBP-MG
Obs.: para a fonte e outras fotos de Damon Winter sobre a mesma temática:
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MOMENTO LACAN
Na última sexta-feira, contamos 30 anos da morte de Jacques-Lacan. Durante a XVI Jornada da EBP-MG, haverá um Momento Lacan, para celebrarmos a vida de Lacan. Jésus Santiago, em uma das Plenárias da Jornada, foi convidado para, digamos assim, acender a tocha, destacando-nos a chama que a presença viva e permanente de Lacan faz incidir sobre a invenção freudiana e os modos como a colocamos em prática em nossas vidas. Essa expressão – Vida de Lacan – é título de um livro de Jacques-Alain Miller, que os membros da EBP receberam como presente da Diretoria dessa Escola na última sexta-feira e que estará também disponível, para aquisição, na Livraria dessa Jornada.
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AVISO 1:
Até o próximo dia 16, os valores para inscrição na XVI Jornada da EBP-MG ainda são os mais reduzidos. Antecipem, portanto, suas inscrições e, desde já, garantam suas vagas.
AVISO 2:
No blog da Jornada, temos publicado, além deste Boletim, textos provenientes, em parte ou integralmente, dos Seminários Preparatórios para a XVI Jornada da EBP-MG. Assim, já podem ser encontrados lá textos de Elisa Alvarenga, Cristina Drummond e Lilany Pacheco. Na segunda-feira, dia 12 deste mês, será publicada uma versão parcial da apresentação que Jésus Santiago realizou em um dos Seminários Preparatórios do semestre passado. Trata-se “A experiência analítica na época da permissividade delirante”. Lendo esse texto, poder-se-á ver que, se no último Seminário Preparatório, Lilany falou sobre a inibição, naquele que foi o primeiro e proferido por Jésus, a temática era a da desinibição. Em ambas situações – de inibição ou de desinibição – o desafio é como analisar frente à “precariedade das elaborações”.
O endereço do blog é:
AVISO 3:
Membros da EBP e Aderentes da EBP-MG que publicaram livros recentemente e tenham interesse em lançá-los durante a XVI Jornada da EBP-MG, favor entrar em contato com Mônica Campos, coordenadora da Comissão de Livraria:
AVISO 4:
Se você pode ajudar-nos a divulgar a XVI Jornada da EBP-MG, entre em contato com Cristina Nogueira, Coordenadora da Equipe de Divulgação:
Desta vez, fizemos um número maior de folders, para que possamos distribuí-los mais amplamente, visando sobretudo àqueles potencialmente interessados em se inscrever nesse evento. Para divulgá-la, contaremos também com cartazes.
AVISO 5:
GPS off road continuará circulando, até a data da XVI Jornada da EBP-MG (28 e 29 de outubro de 2011). Enviem suas contribuições, sempre curtas, para laia.bhe@terra.com.br