AS FICÇÕES TECNOCIENTÍFICAS DO CORPO E A PSICANÁLISE

AS FICÇÕES TECNOCIENTÍFICAS DO CORPO

E A PSICANÁLISE*



                                                                             Cristina Drummond



Parto do noticiado caso de Chaz Bono, que foi nomeado Chastity Bono dom a partir do filme Chastity (Castidade), que teve sua première pouco antes de seu nascimento, em 1969, e que foi produzido por seus pais, Sonny e Cher, que interpreta neste seu primeiro filme o papel de uma mulher bissexual. Chaz, ainda uma menina naquela época, participou de vários programas de televisão junto com os pais, figuras conhecidas e públicas do universo das imagens. Esses dados biográficos são apenas referências das circunstâncias simbólicas presentes em sua vinda ao mundo.

Em Family Outing, um de seus dois livros, Bono escreveu: "como uma criança, sempre senti que havia algo diferente em mim. Eu olhava para as outras meninas da minha idade e me sentia perplexa com o seu interesse evidente pela última moda(...) Aos 13 anos eu finalmente encontrei um nome para exatamente como eu era diferente. Percebi que eu era gay".[1]

Atualmente Chaz Bono mantém um relacionamento com uma mulher há seis anos. Relata que começou a ter uma relação de repulsa em relação a seus seios e essa insatisfação foi num crescendo até que fez uma cirurgia para retirá-los. Junto com a cirurgia, ele toma vários hormônios masculinos que mudaram a sua voz e lhe trouxeram uma aparência masculina. Tudo registrado por câmeras e divulgado para o olhar de todos os interessados num documentário, Becoming Chaz, que estreou em maio. Entretanto, ele não sentiu qualquer necessidade de uma cirurgia em seus genitais e se considera um transexual, transgender. O processo de reconhecimento jurídico de sua identidade masculina foi concluído em 07 de maio de 2010, quando um tribunal da Califórnia concedeu o seu pedido de uma mudança de nome e sexo o que faz dele legalmente um homem que está noivo e pretende se casar.

Esse exemplo nos coloca no meio da questão do que é ter um corpo hoje a partir dos efeitos do discurso da ciência em nosso mundo, do declínio da função paterna, da presença do discurso jurídico que pretende legislar um real sem lei e sobretudo da convocação do olhar sob a forma da publicação das imagens e dos detalhes das transformações que o corpo de Chastity sofreu. Todos participam desse delírio de inadequação entre o corpo e a sexualidade que o sujeito reconhece como própria e que poderia ser corrigida cirurgicamente.

Esse exemplo também nos mostra que hoje em dia, a própria noção de limite corporal é interrogada. Algumas tecnologias recentes colocadas a serviço do conhecimento médico tornam inapta a noção de integridade corporal. Escutados desde seu interior, podemos fazer ressoar os corpos como câmaras de eco. A noção de limite se tornou incerta e a identidade sexual é reduzida a uma fabricação imaginária que nem sequer corresponde ao que considerávamos como o que definiria anatomicamente a diferença sexual. Na verdade, a solução encontrada por Chaz possibilita ao sujeito se manter fora da partilha sexual, como ex-sexo, como diz Lacan.

Esse caso toca a questão dos usos e desusos do corpo no século XXI, onde vemos corpos-superfícies nos quais se inscrevem as marcas da época e que buscam fazer do corpo uma superfície onde se escreve uma língua universal, com a pretensão de poder ser lida em qualquer lugar, em qualquer tela: tatuagens e piercings, escarificações, liftings, cirurgias plásticas diversas. Palavras sobre a pele, sobre as vestimentas, que desfilam para os olhares do mundo e participam de concursos muito frequentados onde um olhar expert buscará fazer essas incisões no corpo tomarem a dimensão de arte compartilhada num mercado. Ao lado dessa prática de vestir os corpos, a arte contemporânea muitas vezes os mostra fragmentados, corpos de carne reduzidos a pedaços e dejetos. Ainda uma oferta ao olhar do Outro. Implantes de todos os tipos, chifres, extensões contemporâneas do corpo através de diversos objetos modernos, prolongamentos dos objetos a que Lacan chamava naturais. Encontramos em crianças e adolescentes inibições, desinibições e dispersões que condicionam por um lado corpos desafetados, abúlicos, desvinculados ou adormecidos e por outro corpos sem freio nem limites que regulem a relação do sujeito com o outro ou com o seu próprio corpo. Falam ainda dessa ausência de regulação os cada vez mais frequentes distúrbios alimentares acompanhados das incríveis ofertas de dietas e cirurgias corretivas.  Encontramos ainda a falicização encarnada pelos corpos sarados, musculosos, aqueles dos atletas, modelados por um ideal higienista e que muitas vezes entram em falência pelos excessos.

Todos esses usos das tecnologias contemporâneas para alterar a imagem do corpo o transformam num puro objeto tomado pela técnica e o mantém fora do campo do desejo. Os sites da internet difundem essas imagens disponíveis para o uso de qualquer fantasia e para a satisfação de qualquer pulsão voyeurista.

Haveria nessas práticas algum tratamento de um ponto do real pela via do imaginário? O que a psicanálise teria a dizer sobre esses fenômenos que decorrem do disfuncionamento da ordem simbólica em nosso mundo? Para a psicanálise, o desejo se inscreve por uma contingência corporal[2] e a relação do indivíduo com seu corpo e com seu mundo não é unificada. Apesar de a imagem tomar em nosso mundo cada vez mais importância e valor, a imagem unificadora do corpo não anula o despedaçamento inicial da experiência pulsional que está no fundo de todos esses tratamentos que os sujeitos contemporâneos dão a seus corpos. As ficções contemporâneas, tanto as jurídicas como as médicas possibilitadas pela ciência, tentam nomear um ser que não existe e deixam escapar o real da não relação sexual. Por sua vez, a psicanálise evidencia que não há representação unificada do sujeito, o corpo é sempre desmembrado e a pulsão é sempre múltipla.















* N.E.: Este texto apresenta parcialmente a intervenção no terceiro Seminário Preparatório da XVI Jornada da EBP-MG, ocorrido no dia 2 de junho de 2011 e intitulado “Ter um corpo hoje”. A versao integral, que inclui um caso clinico de psicose, poderá ser lida na revista ALEPH, da Delegação Paraná da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP-PR).



[2] Lacan, J. O Seminário, livro 20, Mais,ainda, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1985 (1972-1973), p.126.

Jornada EBP-MG